“Eu sei exatamente o que preciso fazer. O problema é que não consigo fazer.”
Essa é uma frase que escuto com frequência no dia a dia clínico, durante avaliações psicológicas e neuropsicológicas e também nos momentos de orientação de carreira. São adultos que sabem que precisam organizar a agenda, começar uma tarefa, estabelecer prioridades ou concluir um projeto, mas percebem uma distância entre saber o que precisa ser feito e conseguir transformar essa intenção em comportamento.
Essa diferença nem sempre significa falta de vontade, disciplina ou interesse. Para compreendê-la, precisamos falar sobre as funções executivas, um conjunto de processos envolvidos na organização e regulação do nosso comportamento.
Saber o que fazer não significa conseguir fazer
As funções executivas participam da nossa capacidade de estabelecer objetivos, planejar, iniciar atividades, organizar informações, controlar respostas impulsivas, monitorar o próprio desempenho, adaptar estratégias e concluir tarefas.
Elas estão presentes em situações comuns da vida adulta. Quando definimos prioridades para o dia, resistimos a uma distração, organizamos diferentes etapas de um projeto ou percebemos que uma estratégia não está funcionando e precisamos modificá-la, estamos utilizando diferentes recursos executivos.
Por isso, uma pessoa pode compreender perfeitamente uma tarefa e, ainda assim, ter dificuldade para executá-la. Antes de interpretar esse comportamento como “preguiça”, “desorganização” ou “falta de comprometimento”, é importante compreender o que pode estar acontecendo com seu funcionamento.
Por que começar e terminar uma tarefa pode ser tão difícil?
No consultório, encontro adultos capazes de resolver problemas complexos, mas que passam horas tentando começar uma atividade relativamente simples. Outros iniciam vários projetos e têm dificuldade para concluí-los, perdem prazos, subestimam o tempo necessário para uma tarefa ou ficam paralisados quando existem muitas demandas simultâneas.
Planejamento, controle inibitório, flexibilidade cognitiva e memória de trabalho podem participar dessas dificuldades de maneiras diferentes. A memória de trabalho, por exemplo, permite manter informações temporariamente disponíveis enquanto realizamos uma atividade. Quando precisamos acompanhar várias instruções, organizar mentalmente etapas ou comparar possibilidades, dependemos desse recurso.
Isso também ajuda a compreender por que sobrecarga, estresse e preocupação podem interferir no desempenho. Quando muitas informações e preocupações disputam nossos recursos ao mesmo tempo, organizar e executar uma tarefa pode exigir muito mais esforço.
“Eu sempre dei conta. Por que agora não consigo?”
Essa pergunta aparece especialmente entre adultos que passaram anos sendo reconhecidos pela capacidade de resolver problemas, assumir responsabilidades e entregar resultados. Em algum momento, porém, percebem que começaram a procrastinar mais, esquecer compromissos, perder prazos ou precisar de um esforço muito maior para realizar aquilo que antes parecia simples.
A primeira reação costuma ser aumentar a cobrança. A pessoa trabalha mais, reduz pausas e tenta compensar as dificuldades com esforço adicional. Entretanto, uma mudança no funcionamento merece ser compreendida, principalmente quando começa a interferir na vida profissional, acadêmica, familiar ou social.
Estresse, ansiedade, alterações de humor, dificuldades de sono, sobrecarga e esgotamento podem interferir no funcionamento cognitivo. Por isso, além de perguntar o que a pessoa não está conseguindo fazer, precisamos compreender quando a dificuldade começou, em quais situações aparece e o que estava acontecendo em sua vida naquele período.
Dificuldades executivas não significam automaticamente TDAH
Muitos adultos procuram uma avaliação neuropsicológica depois de perceberem dificuldades de atenção, procrastinação, desorganização, impulsividade ou problemas para concluir tarefas. Algumas dessas manifestações podem estar presentes no TDAH em adultos, mas não são exclusivas dessa condição.
Ansiedade, alterações de humor, problemas de sono, estresse, sobrecarga e outras condições também podem produzir queixas semelhantes. Em determinadas situações, a investigação pode envolver características relacionadas ao TEA, às altas habilidades/superdotação (AH/SD), à dupla excepcionalidade ou à coexistência de diferentes condições.
Por isso, avaliar não deveria significar procurar rapidamente um diagnóstico que corresponda a uma lista de sintomas. É necessário compreender a história de desenvolvimento, o funcionamento atual, os diferentes contextos e as repercussões das dificuldades na vida cotidiana. É nesse processo que o diagnóstico diferencial se torna particularmente importante.
Potencial e desempenho não são a mesma coisa
Outra questão que aparece na clínica e na orientação de carreira é a distância entre aquilo que a pessoa reconhece como seu potencial e aquilo que consegue demonstrar na prática.
Isso pode ser especialmente angustiante para adultos que sempre foram reconhecidos por sua inteligência ou apresentam altas habilidades/superdotação. Existe uma expectativa de que uma capacidade intelectual elevada deveria resultar automaticamente em elevado desempenho acadêmico ou profissional.
Entretanto, inteligência, funções executivas, motivação, autorregulação, saúde mental, oportunidades e contexto não são equivalentes. Uma pessoa pode apresentar alto potencial e, ao mesmo tempo, encontrar dificuldades para organizar a rotina, manter constância ou transformar ideias em projetos concluídos.
Compreender essa diferença ajuda a substituir julgamentos por perguntas mais úteis sobre como aquela pessoa funciona.
Funções executivas também importam no trabalho
No ambiente profissional, as funções executivas participam da gestão do tempo, definição de prioridades, organização, adaptação às mudanças e tomada de decisão. Mas isso não significa colocar toda a responsabilidade pelo desempenho sobre o indivíduo.
Um ambiente marcado por interrupções constantes, prioridades contraditórias, excesso de demandas e baixa previsibilidade pode aumentar a exigência executiva sobre qualquer profissional. Para algumas pessoas, dependendo de suas características individuais, esse custo pode ser ainda maior.
Compreender as funções executivas, portanto, não serve apenas para discutir produtividade. Ajuda a entender como transformamos capacidade em ação e como o contexto pode facilitar ou dificultar esse processo.
Quer compreender melhor o seu funcionamento?
Se dificuldades de atenção, memória, planejamento, organização, autorregulação ou funções executivas interferem de forma persistente em sua vida, uma avaliação psicológica ou neuropsicológica pode ajudar a compreender os fatores envolvidos e, quando indicado, contribuir para o diagnóstico diferencial de condições como TDAH, TEA e altas habilidades/superdotação.
Quer compreender melhor seu funcionamento cognitivo e emocional?
Entre em contato para conhecer as possibilidades de avaliação.
Quer levar esse tema para sua empresa?
Planejamento, priorização, flexibilidade, autorregulação e tomada de decisão também fazem parte do cotidiano das organizações. Desenvolvo palestras, workshops e treinamentos para empresas e instituições sobre funções executivas, neurodiversidade, saúde mental e desenvolvimento humano.
Entre em contato para palestras e treinamentos.
Por Damião Silva
Psicólogo • Neuropsicólogo • Pedagogo • Pesquisador


