Eu aprendi a me apagar na escola: quando não se destacar virou proteção na superdotação

Falar sobre superdotação na escola ainda é, para muitas famílias, um tema atravessado por dúvidas, mitos e, principalmente, silêncios. Eu escrevo este texto em primeira pessoa porque ele não nasce apenas da prática clínica, mas da minha própria trajetória. Em 1997, quando entrei na 7ª série, eu já não era exatamente a mesma criança da 4ª série. Eu vinha, silenciosamente, me apagando desde a 5ª, quando ocorreram mudanças de segmento, de professores e de dinâmica escolar. E meu maior trauma o professor de educação física.

Na década de 1990, o modelo escolar era majoritariamente conteudista, centrado na transmissão e reprodução fiel da matéria, com pouco espaço para aprofundamento crítico ou conexões ampliadas. Ao mesmo tempo, quase não havia discussão estruturada sobre altas habilidades/superdotação; o tema era associado a estereótipos de genialidade ou desempenho excepcional, sem considerar intensidade emocional, assincronia no desenvolvimento ou vulnerabilidades socioemocionais. Nesse contexto, minha forma de pensar, mais expansiva e questionadora, nem sempre encontrava acolhimento. Sem linguagem ou referência para compreender essa diferença, a tendência era internalizar a experiência como inadequação pessoal.

Não houve um episódio isolado, mas um acúmulo de pequenas experiências comentários sutis, olhares impacientes, a ideia de que eu “complicava demais”. Aos poucos, compreendi algo difícil para uma criança: destacar-se podia ameaçar o pertencimento (Ainda que eu não tivesse consciência clara disso na época, eu apenas sentia que precisava mudar para não me afastar dos outros.) Eu não queria competir nem aparecer; eu só pensava daquele jeito. Ainda assim, comecei a me ajustar para continuar fazendo parte do grupo.

O processo de apagamento foi gradual. Primeiro, reduzi minha participação em sala. Depois, simplifiquei minhas respostas. Em seguida, passei a simular dúvidas quando já havia compreendido o conteúdo. Essa mudança não foi planejada; foi uma adaptação emocional. Eu estava tentando preservar (o mínimo) vínculo social, mesmo que isso significasse diminuir a expressão do meu jeito de ser.

Hoje compreendo, pela minha experiência clínica, que o ser humano organiza seu comportamento a partir da necessidade de pertencimento. Quando a diferença é percebida como ameaça à aceitação, a tendência é modular a própria expressão para preservar vínculo. O que vivi não foi perda de capacidade, mas uma reorganização defensiva diante de um ambiente que não reconhecia a superdotação como parte legítima da diversidade escolar. Essa adaptação, porém, teve custo: ao ocultar aspectos centrais da minha forma de pensar, passei a investir energia em monitorar o ambiente, e não em expandir conhecimento. A escola deixou de ser espaço de descoberta e tornou-se um contexto de autocontenção, contribuindo para aumento de ansiedade escolar, maior retraimento e redução da espontaneidade que antes me caracterizava.

Anos depois, na prática clínica, passei a reconhecer esse mesmo padrão em muitos pacientes: crianças e adolescentes com elevado potencial cognitivo que reduzem participação, apresentam queda de rendimento ou desenvolvem ansiedade e retraimento no contexto escolar. O que costuma ser rotulado como desmotivação frequentemente revela, na escuta aprofundada, uma dinâmica de proteção manifestada por camuflagem cognitiva ou autossabotagem acadêmica. Esses comportamentos não indicam falta de capacidade, mas adaptação a um ambiente percebido como pouco seguro para a expressão plena da própria capacidade intelectual.

Escrevo este texto porque ainda existem muitos estudantes que aprendem cedo demais a reduzir sua potência para preservar vínculo. Reconhecer que, em determinados contextos, não se destacar pode ser uma forma de proteção é essencial para que pais, educadores e profissionais intervenham com responsabilidade. Nem toda queda de rendimento é desinteresse, e nem todo silêncio é maturidade; às vezes, é defesa diante da ausência de reconhecimento. Em outro momento, compartilho também como foi o meu próprio processo de reconstrução da autoestima e de retomada da identidade intelectual um caminho que não foi imediato, mas possível.

Se você percebe sinais semelhantes no seu filho ou aluno, buscar orientação especializada pode fazer diferença. A psicoterapia, a avaliação psicológica, a avaliação neuropsicológica e a orientação escolar — incluindo consultoria para elaboração de PEI (Plano Educacional Individualizado) — são caminhos estruturados para compreender o perfil da criança e reorganizar o ambiente de forma mais segura e coerente com suas necessidades. Quando há reconhecimento e estratégia, não é preciso escolher entre pertencer e se desenvolver.

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