A autoestima de crianças superdotadas e com dupla excepcionalidade (2E) ainda é compreendida de forma bastante superficial por muitas pessoas. Existe uma tendência social de acreditar que inteligência elevada produz automaticamente segurança emocional, maturidade psicológica e boa capacidade de adaptação. Entretanto, a prática clínica e a literatura científica mostram exatamente o contrário em muitos casos. Crianças superdotadas frequentemente vivenciam emoções de maneira extremamente intensa, possuem elevada sensibilidade emocional e desenvolvem desde cedo uma percepção profunda sobre si mesmas, sobre os outros e sobre o mundo. Quando não encontram adultos capazes de compreender essa complexidade emocional, podem desenvolver sofrimento psíquico significativo, sensação de inadequação e uma autoestima profundamente fragilizada.
Recentemente acompanhei uma menina superdotada de 11 anos que ilustra de maneira muito clara esse fenômeno. Era uma criança com desempenho excepcional em praticamente todas as áreas. Apresentava vocabulário sofisticado, memória impressionante, elevada criatividade, leitura avançada para a idade e enorme facilidade para aprender conteúdos complexos. Na escola, costumava ser reconhecida como “a aluna brilhante”. Tirava notas altas, participava de olimpíadas acadêmicas e demonstrava perfeccionismo em quase tudo o que fazia. Os adultos frequentemente elogiavam sua inteligência, sua maturidade e sua capacidade de resolver problemas.
Entretanto, ao longo do quinto ano escolar, algo começou a mudar. A matemática, que até então fazia parte de sua identidade de competência, passou a despertar ansiedade matemática intensa. Inicialmente surgiram pequenas inseguranças diante de conteúdos mais complexos. Depois vieram as comparações com outros alunos igualmente avançados. Aos poucos, cada erro passou a ser vivido como uma ameaça emocional profunda. A menina começou a estudar excessivamente antes das provas, chorava ao perceber que não conseguia resolver exercícios imediatamente e entrava em desespero diante da possibilidade de não atingir o desempenho esperado.
O que inicialmente parecia apenas “preocupação com notas” evoluiu para um quadro importante de ansiedade matemática. Durante avaliações, seu corpo entrava em estado de alerta. Suava, tremia, esquecia fórmulas que dominava em casa e tinha sensação constante de incapacidade. Mesmo continuando acima da média da turma, sua percepção interna era de fracasso absoluto. Em pouco tempo, a autoestima despencou.
O aspecto mais doloroso era perceber que ninguém ao redor compreendia seu sofrimento. Como continuava sendo uma aluna de alto desempenho, muitos adultos minimizavam sua dor emocional. Escutava frases como “você é inteligente demais para ter dificuldade nisso”, “isso é falta de confiança” ou “queria eu ter sua inteligência”. Aos poucos, começou a internalizar a ideia de que havia algo errado consigo mesma. Afinal, se todos acreditavam que ela era brilhante, por que sentia tanto medo de errar?
Esse é um ponto extremamente importante quando falamos sobre crianças superdotadas. Muitas desenvolvem uma autoestima excessivamente baseada no desempenho. Desde cedo aprendem que recebem reconhecimento quando acertam, produzem ou performam acima da média. Com isso, começam a associar valor pessoal à competência acadêmica. O problema é que, quando surgem dificuldades reais, falhas ou experiências de frustração, a criança não possui recursos emocionais para separar desempenho de identidade.
Em crianças com dupla excepcionalidade (2E), esse cenário tende a ser ainda mais intenso. Estamos falando de crianças que apresentam altas habilidades/superdotação associadas a condições como TDAH, TEA, dislexia dentre outras condições sensoriais, físicas ou de saúde mental. Essas crianças frequentemente vivem uma experiência paradoxal. Em alguns contextos demonstram inteligência excepcional e pensamento sofisticado. Em outros, apresentam desorganização, impulsividade, dificuldades emocionais ou limitações acadêmicas específicas. Como resultado, passam a conviver desde muito cedo com mensagens contraditórias sobre quem são.
Muitas vezes escutam frases como “você consegue coisas tão difíceis, então deveria conseguir isso também”. Aos poucos, começam a construir uma percepção distorcida de si mesmas. Passam a acreditar que existe uma falha interna porque percebem suas potencialidades, mas também convivem diariamente com limitações reais que não conseguem controlar completamente. Esse conflito costuma gerar vergonha, ansiedade, perfeccionismo infantil e sensação persistente de inadequação.
Um dos maiores erros na educação de crianças superdotadas é confundir competência intelectual com maturidade emocional. O fato de uma criança apresentar raciocínio avançado não significa que tenha recursos emocionais suficientes para lidar com frustrações, críticas ou medo de falhar. Na verdade, muitas crianças com altas habilidades sentem tudo de maneira amplificada. Possuem forte senso de justiça, elevada consciência social, profundidade existencial e intensa percepção das expectativas externas.
No caso dessa menina, a matemática deixou de ser apenas uma disciplina. Tornou-se uma ameaça à própria identidade. Cada dificuldade passou a ser interpretada como prova de incapacidade. O erro deixou de representar uma etapa natural da aprendizagem e passou a simbolizar fracasso pessoal. Isso produziu um ciclo extremamente desgastante: quanto maior a ansiedade, pior o desempenho; quanto pior o desempenho percebido, mais intensa a ansiedade.
A autoestima saudável não nasce da ideia de perfeição. Nasce da experiência emocional de sentir-se aceita e valorizada mesmo quando existem vulnerabilidades, erros e limitações. Crianças superdotadas não precisam apenas de estímulo cognitivo ou reconhecimento acadêmico. Precisam de adultos emocionalmente disponíveis, capazes de validar suas experiências internas sem reduzir sua identidade ao desempenho.
Talvez uma das mensagens mais importantes que possamos oferecer a essas crianças seja que elas não precisam funcionar perfeitamente para continuarem tendo valor. Porque muitas cresceram acreditando exatamente no contrário. E quando uma criança aprende que seu valor não depende exclusivamente da performance, ela finalmente consegue desenvolver suas potencialidades sem adoecer emocionalmente para isso.
Se você reconheceu o seu filho neste texto, saiba que compreender o que está acontecendo é o primeiro passo para aliviar esse sofrimento. No Instituto ÚnicaMente, realizamos avaliações psicológicas e neuropsicológicas especializadas em crianças superdotadas e com dupla excepcionalidade — com escuta atenta, rigor científico e um olhar verdadeiramente humano sobre cada caso. Agende uma avaliação e dê a esse filho o que ele mais precisa: ser visto de verdade.