Vivendo a intensidade da superdotação: um relato sobre Marina – Parte 2

Por Raquel Souza

Nessa fase conturbada, uma luz surgiu no nosso caminho: o Dan, esse profissional singular, muito preparado. É como se uma luz realmente se acendesse e pudéssemos ver um caminho à frente, por onde seguir, ainda que também com os obstáculos, os desafios, tudo. No dia em que tivemos uma primeira conversa, sinto que ali começou realmente a nossa jornada de atendimento às necessidades da nossa filha. E o primeiro passo foi a aceitação de sua condição, o conhecimento de todas as características e do fato que era possível e ela precisava de suporte para ter seu desenvolvimento saudável garantido. Decidimos fazer uma terceira avaliação, dessa vez, com testes adequados. Lembro que no dia da avaliação, Marina corria pela sala, subia nas cadeiras, se escondia embaixo das mesas. Ela pôde ali, ser ela mesma. 

Em poucos meses, após algumas reuniões do Dan com a escola, Marina teve sua primeira aceleração. Antes disso, lembro dos olhinhos de Marina brilharem numa aula pela primeira vez, algo que achei que jamais aconteceria na escola. A coordenadora, para observá-la, deu a ela um conteúdo de gramática bem mais avançado. E viu como ela aprendia rápido. Marina ficou realizada, como se tivesse ganhado um super presente! Nessa noite, depois de muito pular comemorando essa aula, ela falou: “Eu sempre achei que estava errada em ser diferente das outras crianças. Mas eu gosto de ser assim, uma criança que gosta de aprender e aprende muito rápido. Eu me sinto muito bem comigo mesma quando vejo que sou capaz de aprender coisas novas”. Nesse dia, ela dormiu super rápido e feliz.

Marina passou do meio do segundo ano para o meio do terceiro ano. Junto com a medida, a escola procurou tomar outras providências para ajudá-la nesse processo, em conjunto com o Dan. Quanto ao conteúdo e às provas, foi muito fácil pra ela. A dificuldade, como não poderia deixar de ser, foi na socialização. 

E passado o primeiro mês de aceleração, fui surpreendida com mudanças muito significativas no comportamento dela. Estava calma, dormia melhor, ouvia os comandos, aprendia as coisas simples que antes não conseguia, como tomar banho sozinha. Jamais poderia supor quão negativo era o impacto de um ambiente escolar despreparado na vida da Marina. Certo dia, ela estava assistindo aula online do curso de inglês, que ela amava. No meio da aula, o computador descarregou. Normalmente a frustração a faria entrar numa crise enorme com gritos, arremesso de coisas e tomaria um tempo enorme pra voltar a si. 

Pois nesse dia, ela me chamou calmamente. E relatou que o computador tinha desligado. Sem crise, esperou a aula voltar e retomou o estudo, enquanto eu fui chorar escondido, de alívio e surpresa.

Não diria que foi um processo simples, nem rápido. Este é o maior desafio para nós pais, saber esperar a hora de colher os frutos. Cada conversa do Dan comigo, do Dan com a escola, minha com a escola, foi modificando aos poucos a nossa forma de lidar com a Marina, ela recebendo a oportunidade de se desenvolver. Ganhou uma mãe mais consciente, mais flexível, mais respeitosa. Ganhou profissionais da escola mais conscientes também.

No ano seguinte, apesar dos esforços de algumas profissionais da escola em fazer adequações para a Marina, tivemos muitos problemas. O volume de repetições, o conteúdo muito aquém, a dificuldade de interagir com os colegas, fez do ano dela uma luta imensa. No fim, a própria equipe escolar decidiu fazer uma nova aceleração e foi assim que aos nove anos, Marina ingressou no sexto ano do ensino fundamental 2.

Nessa época, ela tinha iniciado uma intervenção muito importante com psicólogo, para estimular as funções executivas. Nunca imaginei que Marina pudesse chegar ao ponto em que está hoje. Apesar de muitos dizerem, sem conhecimento, que é claro que ela aprenderia a lidar com as coisas da vida quando amadurecesse, só quem tem uma criança como ela, entende que as coisas não são assim. Até os 9 anos, quando ela iniciou esse processo terapêutico, não tinha amadurecido em muitos aspectos. Ela não sabia lidar com coisas “simples”. 

Amarrar os sapatos parece simples? Não para uma criança que diante de uma atividade nova é tomada por uma ansiedade paralisante, que não consegue assimilar os comandos simples que são dados. Durante anos eu tentava ensinar, e ela parecia não ouvir o passo a passo e começava a tentar amarrar aleatoriamente. E isso se refletia em várias outras atividades, inclusive na escola, nas aulas de educação física, por exemplo.

Então, quando ela começou o trabalho com o Bryan, um dia ela decidiu tentar aprender a amarrar os tênis, e eu fui dizendo a ela o que fazer. Ela estava calma como nunca. Ouviu os comandos. Tentou, não conseguiu. Tentou de novo e de novo. Recomeçou. Insistiu até conseguir. E quando conseguiu, pra mim foi mais emocionante do que se ela tivesse ganhado qualquer olimpíada de ciências! Não era tanto pelo sapato. Ela tinha aprendido a aprender. Entre tantas outras habilidades envolvidas num simples processo de aprender.

Não é pouco para uma criança com tanto potencial. Pois tudo pode se perder se ela não possui essas habilidades elementares.

Música, um dos talentos de Marina

Marina tem uma habilidade rara, conhecida como “ouvido absoluto”. Nós identificamos no dia que ela ainda muito pequena estava ouvindo o barulho da impressora e disse: “Isso é um Fá”. O pai correu ao violão para checar e realmente o som era uma nota fá. Ele passou a testá-la, tocando outras notas, e ela foi dizendo a ele exatamente que nota ele estava tocando. O contrário também: ela é capaz de cantar qualquer nota que pedirmos a ela. Raríssimas pessoas nascem com essa habilidade, outras a desenvolvem com o passar dos anos dedicados à música.

Marina tem inteligência musical, mas sem desenvolver outras habilidades, ela jamais teria seguido no estudo da música. Ela disse que seu sonho era se tornar uma pianista.

 O estudo do piano requer disciplina, repetição, e em especial ela precisa lidar a todo momento com o próprio erro. Ela não gosta de errar. No início do curso, ela tinha crises que assustavam o professor dela, batia nas teclas com raiva de si mesma, levava muito tempo pra se acalmar. Sem o acompanhamento psicológico e um professor disposto a compreendê-la e ajustar o método, ela certamente teria desistido. 

Hoje quem a vê tocando uma música com calma, precisão e alegria, talvez não imagine que por trás, houve um trabalho constante do psicólogo, da mãe e do professor, para que ela conseguisse lidar com os desafios em torno do estudo do piano para enfim desenvolver seu potencial e se realizar.

As pessoas acham que se uma criança é superdotada em alguma área, ela é autodidata, e não precisa de orientação de um professor, ou que não encontrará desafios que talvez a façam parar e até desistir do seu sonho.

No piano, Marina aprende rápido, pega tudo de ouvido, harmoniza de ouvido, mas toda a técnica precisa ser ensinada. Um dia, o professor viu que ela já tinha pegado uma música toda sozinha e sugeriu uma nova técnica, muito difícil. Ele avisou que era um desafio, que talvez ela não conseguisse, mas que ficasse tranquila, pois iria conquistar isso aos poucos. Eu também, que já estudei piano, achei que ela não conseguiria. Ela tentou, sem a expectativa de conseguir, sem se cobrar, e incrivelmente dominou a técnica no primeiro dia. Ou seja, é fácil pra ela. Mas precisa de orientação, condução, incentivo do professor. 

Hoje Marina ainda tem desafios durante as aulas de piano, mas desistir já não é uma possibilidade. Ela está totalmente envolvida com sua arte, está focada em tocar todas as músicas dos Beatles, está lendo livros sobre a banda, virou seu foco principal. 

Ela tem lidado melhor com o perfeccionismo, aceitado melhor críticas e correções do professor. O tempo de dedicação, com orientação do psicólogo, foi evoluindo: primeiro treinava dez minutos, depois fomos aumentando, e hoje ela já treina uma hora por dia sem sofrimento e vai sozinha. E fica realizada com o próprio progresso, pois esse era o sonho dela!

Passados dois anos de ajustes escolares (e considerando que não foram todos os ajustes necessários) e um ano de acompanhamento com o Bryan, temos certeza que Marina está muito bem. Os tiques desapareceram completamente. Inclusive, durante um longo tempo eles serviam de sinal pra mim, de quando as coisas não iam bem. Marina não grita nem chora como antes para fazer trabalhos escolares. Obviamente, com orientação, eu aprendi a flexibilizar e pedir que ela faça o necessário pra ela, e a escola também. Marina lida com mais serenidade com as situações frustrantes do cotidiano. E o mais impressionante é que ela expressa muito bem o que sente, como se sente, conta com clareza o que acontece no seu dia. Os desafios sempre serão grandes, pela intensidade e sensibilidade que são parte dela. Mas é muito reconfortante saber que ela está adquirindo ferramentas para lidar consigo mesma e principalmente com um mundo despreparado para pessoas como ela.

Nesse processo vejo que no movimento de entender nossa filha, nós os pais nos deparamos com nossa própria infância e algumas de nossas características, por anos ignoradas ou estrategicamente escondidas. Aprendi tanto durante esse ano com o Bryan, quando ele me fornecia alguma dica de como lidar com Marina, especialmente flexibilizando. Porque me levava a refletir: porque será que agir daquela forma era tão difícil para mim? E assim, buscando fortalecer nossa filha, vamos também nos fortalecendo e evoluindo.

Esses dias, uma das coordenadoras da escola me disse: “No ano passado, aprendi muito com Marina”. E esse é o caminho que nós seguimos também.

A seguir, um poema do Bruno, pai da Marina, escrito para ela, na pandemia:

Marina sob um céu de aves marinhas

A maneira calma

Com que ela pousa os olhos grandes

Escuros e expressivos

Sobre as pequenas coisas

Seu ar de eterna dúvida 

Que nada sacia

A curiosidade pelo mundo fora de si

Sua participação no todo

Com seu universo interno, infinito, em expansão 

São características muito suas

Definem, sem resumo, o fato raro

O milagre de tranças 

A nossa vida

                      Pela 

                               sua 

                        Vida

Sobre a nossa

M       A       R      I       N       A

Em que meu coração atraca”

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