Vivendo a intensidade da superdotação: um relato sobre a Marina – Parte 1

 

Uma forma de experimentar a vida sentindo tudo, todos e a si mesma integralmente. Como ela mesma diz: “nada é um detalhe sem significado, tudo me alcança.”

Já se vão dez anos desde que ela chegou, chorando alto, absorvendo um mundo de sensações por segundo. Veio pro meu colo com pequenos olhos brilhantes e muito vivos que encontraram os meus, cheios de curiosidade. Todos ficamos impressionados. Dizem que recém nascido demora a abrir os olhos, Marina não. Na verdade, quase nada sobre Marina é comum. 

As primeiras sensações da vida a atingiram incrivelmente, os sons, movimentos, qualquer coisa lhe causava impacto e não era pouco, por isso, chorava e se inquietava demais. Praticamente não dormia: o primeiro sono de quatro horas ininterruptas só veio com quase um ano de idade, quando começou a andar e pôde, finalmente, gastar sua energia imensa. 

E foi nessa mesma época que a nossa pequena, ainda se equilibrando nas duas perninhas, prendeu sua atenção na letra H gravada em um bloco de empilhar. Ela chamou de A, no banho. Eu corrigi, disse que era o H. E ela nunca mais errou. Vinha correndo me trazer o H quando o encontrava pelo quarto: “Agá!”. Assim, dessa mesma forma, foi aprendendo as outras letras. Uma vez que dizíamos o nome da letra, ela aprendia para sempre. E num piscar de olhos, já dominava o abecedário completo e depois os números. 

Efeitos dos mitos sobre a superdotação 

Acontece que a desinformação e os mitos sobre a superdotação não me permitiram ver esses e outros sinais. A gente nunca acha que é capaz de gerar um gênio, já que para o senso comum, superdotado é gênio. Então, a gente só agradecia por ter uma criança inteligente e se alegrava, até o momento em que ela entrou no ambiente escolar.

Isso aconteceu antes dos 2 anos de Marina. Quando chegou na creche, já sabia se comunicar perfeitamente sem errar as palavras e assustou as cuidadoras. Eu não falei pra elas que ela já sabia letras, números, cores, formas e até um bom vocabulário em inglês. Achei que não seria um problema, talvez até um facilitador para as professoras. Só que não!

Logo começaram os relatos que a acompanhariam por anos: Marina chorava por tudo, reagia à frustração se jogando no chão, batendo a cabeça, não aceitava mudar de atividade, não aceitava sair do parquinho, não aceitava perder, não aceitava as regras do jogo, não aceitava ficar sentada ouvindo histórias, não obedecia. Depois veio a agressividade e assim o isolamento social. Ninguém se deu conta de tudo que ela sabia e de tudo que poderia desenvolver. O foco era na sua dificuldade de cumprir regras, se regular, se resignar, aceitar comandos e facilitar a rotina escolar.

Tanto é que quando ela juntou as sílabas e começou a ler os livrinhos, por volta dos três anos de idade, passou despercebido na escola. E quando fui relatar, veio um balde de água gelada: “O fato de sua filha saber tudo isso não é bom para ninguém, nem para a escola, nem para ela. Vocês devem reduzir os estímulos, pelo bem dela. Ela vai acompanhar o ritmo das crianças, para terem os mesmos interesses e assim socializarem. E mais: essa precocidade associada aos comportamentos disruptivos dela são indícios de algum transtorno.”

Nós já vínhamos de um ano de sofrimento pelo comportamento dela, com a escola sempre responsabilizando Marina ou a família por tudo que acontecia. Que havia algo muito diferente nela, era óbvio, mas sequer nos permitiram celebrar a incrível capacidade da nossa filha, a maravilhosa pessoinha que geramos, cheia de boas tiradas, reflexões e curiosidade. Chegaram a sugerir medicação para desacelerar nossa filha! Então, nossa filha era um problema?

E foi assim que, aos 4 anos, Marina foi submetida à primeira avaliação neuropsicológica. Dez sessões, realizadas em 2 meses e o laudo não chegava a conclusão alguma. O teste de inteligência não era adequado para sua idade e mesmo assim, a pontuação apresentada foi alta. Por fim, foram descartadas todas as hipóteses de transtorno levantadas pela escola e que tudo não passava de uma questão de “dar limites”.

Um laudo equivocado 

Todo investimento de tempo e dinheiro não foi o maior dano desse laudo. Foi o fato de nós não termos feito absolutamente nada por Marina a partir dele. As coisas continuaram exatamente como estavam. Apenas trocamos de escola, para uma que depois revelou-se ainda pior que a primeira.

Marina entrou no Pré 1 já alfabetizada, e a nova escola ficou ciente disso e da hipótese de ela ser superdotada. Os mesmos comportamentos de se jogar no chão, de não aceitar regras, discutir com professores e colegas, tornaram a acontecer. Com o passar do tempo, os poucos amigos eram instados pelos outros a não falarem com ela. Mas Marina era muito pequena e não relatava. 

No ano seguinte, já no Pré 2, ela foi para uma psicóloga, uma pessoa superdotada, mas que não conhecia bem a própria condição. Porém, a conexão entre elas foi excelente, e logo Marina passou a verbalizar tudo o que se passava na escola. Muitas reuniões foram feitas tentando resolver, mas como não tínhamos certeza da sua condição de superdotada e o impacto disso, não sabíamos o que esperar da escola. E a escola nada fazia para acolher Marina, apenas tentava encaixá-la no grupo. É triste lembrar o quanto ela sofreu por falta de acolhimento e compreensão de quem ela era.

Nessa época, não só ela, mas nós os pais também sofremos uma infinidade de constrangimentos. Devido à intensidade dos choros e gritos da Marina, sugeriam que ela fosse vítima de violência, ou que assistisse brigas de casal. A todo custo procuravam responsabilizar a família, e nós não imaginávamos que a escola também tinha um papel fundamental no estado mental da nossa filha. Nós vivíamos muito bem em família e essa, na verdade, foi a melhor fase da nossa vida como casal. Então, mesmo negando a suspeita da escola, ficávamos buscando onde estávamos errando na formação da nossa filha, e por que razão ela nunca teve um dia de paz em nenhuma escola.

No meio desse ano nós a mudamos para uma terceira escola e é nessa em que ela se encontra até hoje. A escola não sabia absolutamente nada sobre superdotação, assim como nós. Mas é com lágrimas nos olhos que escrevo isso: já no primeiro dia de aula lá, o rostinho da Marina mudou. A tia que fazia a condução dela, me ligou para contar, emocionada. Na verdade, muitas coisas na vida da Marina mudaram pra melhor desde esse dia. As profissionais da escola não sabiam o que fazer, mas sabiam acolher. Uma criança que se jogava no chão, tinha uma cuidadora para acolher, acalmar, escutar. Imediatamente identificaram a dificuldade de Marina em lidar com os próprios erros, a vontade de desistir no primeiro desafio. 

Mas eu sabia que em pouco tempo, se não investigássemos melhor o que acontecia com minha filha, a relação com a escola iria desandar. Infelizmente, nessas horas, nós estávamos sós. As instituições, que deveriam funcionar, na prática, não existem para nós, mas para sustentar salários e posições. Não há informações, não há norte: núcleos, institutos, conselhos, estão encerrados em seus próprios egos e prioridades e desconectados da realidade das crianças. Nesse período, fui a uma palestra sobre o assunto em nossa cidade, aqui no Rio de Janeiro. E lá, uma pessoa muito reverenciada na área de superdotação, disse que as escolas particulares não eram obrigadas a nada. Que a lei era pra escola pública, que as salas de recursos eram pra alunos de escola pública. Que nós deveríamos nos unir e criar escolas particulares só de superdotados, ou uma associação, como a APAE. Ela estava me dizendo que o Estado brasileiro não tem nenhuma responsabilidade com a minha filha. Eu saí de lá inconformada e com a certeza de que estava sozinha nessa luta por Marina.

Enquanto isso, Marina apresentava uma infinidade de tiques. O pior deles era puxar a ponta dos lábios até sangrar. Já tinha até uma deformidade. Outros tiques, envolvendo automutilação, iam e vinham. Quando a gente pensava que tinha parado, voltava. Às vezes, aparecia uma tosse que nenhum exame identificava a causa. Normalmente quando tinha que fazer atividades, a tosse começava. Ela levava as mãos à boca o tempo todo e a tosse só ia embora quando ela adormecia. Por conta disso, ficava sem voz. Era difícil ver minha filha com sua voz natural. 

Seguia lendo muito, aprendendo muito, sua diversão era entrar nas livrarias e escolher seus próprios livros de ciências, história, geografia. Corria para o quarto e só saía de lá quando o livro acabava. Era insone, extremamente agitada e não sabia parar. Uma vez fomos a uma festa infantil e ela correu e pulou por quatro horas seguidas! Depois veio para o meu colo e desmaiou. Não sabia frear o próprio corpo. Tantos anos sem atendimento adequado foram decisivos para Marina. 

Então, quando veio a pandemia, observei o quão absurdo era manter uma criança alfabetizada há anos, assistindo as aulas da classe de alfabetização. Não fazia sentido! Pude ver de perto o desespero nos olhos dela: por que eu tenho que ficar aqui? 

A Marina X O Tempo

Marina tem um senso de desperdício de tempo fenomenal! Diz que dormir é perda de tempo, ficar parado é perda de tempo, ela busca movimento. Parece realmente que dentro dela há muito mais coisas acontecendo por segundo do que a própria vida aqui fora. É uma vontade de fazer, sentir, experimentar, pensar, descobrir. Por isso, ficar parado e ainda mais ouvindo o que ela já sabe, deve ser mesmo torturante. É a plena consciência do seu tempo de vida se esvaindo inutilmente.

Nesse período, pude voltar a pesquisar sobre superdotação e foi quando conheci outras mães, e assim tivemos o primeiro contato com a teoria de Dabrowski. Uma teoria que me ajudava a entender algumas coisas. Quanto mais aprendíamos a respeito da Teoria da Desintegração Positiva, as sobre excitabilidades e etc, mais enxergava Marina e toda sua intensidade e sensibilidade. Serviu para eu parar de tentar consertá-la e isso já fez muito bem a ela. E foi dessa forma que procurei uma pessoa para fazer uma nova avaliação da Marina.

Finalmente recebemos um laudo conclusivo, que embora explicasse algumas questões da Marina e confirmasse sua condição, tinha também sérios problemas. Assim como o primeiro, não nos oferecia direção, nem a nós, como pais, nem a escola. Tanto é que a equipe escolar recebeu o laudo e nada fez.  

Marina iniciou o segundo ano do ensino fundamental e logo no segundo mês de aula já se recusava a ficar no computador. Quando ficava, ia fazer outra coisa nele, como escrever suas histórias ou desenhar. Também interrompia as aulas com perguntas aleatórias, na tentativa de tornar aquele momento mais interessante. Os tiques se intensificaram, choros e gritos sempre desproporcionais. Eu não sabia lidar com ela. E a explicação das sobre excitabilidades, que no caso dela, possuía todas e em níveis altíssimos, acabava por nos conduzir a uma ideia muito perigosa: ela sempre vai reagir às pequenas coisas do cotidiano no grito ou no choro desmedido?.

Será que toda intensidade de Marina era apenas uma questão de personalidade? Será que mudando seu ambiente, ela teria melhores condições de se desenvolver e se regular?

(Confira a parte 2 deste relato).  

 

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