A superdotação em mulheres muitas vezes é mal interpretada, gerando insegurança e dúvida sobre si mesmas. Entenda como isso se constrói ao longo da vida.
Por Damião Silva — Psicólogo, Neuropsicólogo Pesquisador em Altas Habilidades/Superdotação e Pessoa com Altas Habilidades/Superdotação
Ela tem 35 anos e chegou à avaliação a partir de um movimento recorrente em mulheres com superdotação. Não veio inicialmente por uma suspeita própria, mas por validação externa. Uma amiga, ao reconhecer traços semelhantes, sugeriu a investigação, apontando algo amplamente discutido na literatura: a superdotação feminina tende a ser menos reconhecida, menos identificada e frequentemente associada a dúvidas persistentes sobre si mesma.
Desde o início do processo avaliativo, o que se delineou foi um perfil compatível com superdotação, marcado por linguagem sofisticada, organização do pensamento, capacidade de abstração e elevada sensibilidade a nuances. Além disso, observava-se um funcionamento intuitivo refinado, com conexões rápidas e leitura contextual aprofundada, características frequentemente presentes em perfis de altas habilidades/superdotação.
Entretanto, paralelamente a esse funcionamento, emergia um elemento central do ponto de vista clínico: uma dificuldade consistente de reconhecer a própria capacidade. Observava-se um padrão de insegurança, acompanhado de autoquestionamento recorrente e tendência à minimização do próprio desempenho, configurando um processo de desvalorização interna ao longo do desenvolvimento.
Durante a entrevista, um episódio da infância foi retomado com carga emocional significativa. Em contexto escolar, a professora estabeleceu uma dinâmica baseada em comparação explícita de desempenho, na qual os alunos que terminassem primeiro seriam reconhecidos publicamente. Esse tipo de organização desloca a função da tarefa, substituindo o foco no aprendizado por um modelo de competição e exposição social.
Diante dessa exigência, enquanto outras crianças aceleravam a execução, ela manteve seu padrão de funcionamento, priorizando compreensão, organização e qualidade. Esse estilo, frequentemente observado em indivíduos com superdotação, entra em conflito com demandas baseadas em rapidez.
À medida que os colegas finalizavam e eram reconhecidos, a pressão aumentava. A atividade passou a envolver exposição emocional, e permanecer na tarefa passou a significar não corresponder ao ritmo esperado. Ela permaneceu, não por incapacidade, mas por não conseguir flexibilizar seu padrão interno de exigência diante de um ambiente que valorizava velocidade em detrimento de qualidade.
A ausência de mediação foi determinante. Não houve reconhecimento das diferenças de funcionamento nem validação da experiência. O que permaneceu foi a vivência de inadequação em um ambiente que associava rapidez à competência.
Do ponto de vista clínico, esse tipo de episódio pode atuar como organizador de crenças. A criança constrói inferências sobre si mesma que tendem a se generalizar, estabelecendo associações entre desempenho, tempo de resposta e valor pessoal. No caso de indivíduos com superdotação, esse processo é particularmente sensível, pois envolve um padrão de processamento mais aprofundado frequentemente mal interpretado no contexto escolar.
Ao longo do desenvolvimento, essas experiências se integram à autoimagem. Em mulheres com superdotação, observa-se frequentemente uma dissociação entre capacidade e percepção de si, caracterizada por baixa autoeficácia, síndrome do impostor e padrões de perfeccionismo maladaptativo.
É fundamental destacar que, nesses casos, a insegurança não decorre da ausência de capacidade, mas da forma como a superdotação foi interpretada ao longo da trajetória. A discrepância entre funcionamento cognitivo e exigências ambientais foi internalizada como falha, quando, na realidade, tratava-se de um descompasso entre perfil cognitivo e ambiente escolar.
Ao revisitar essa experiência, torna-se possível deslocar essa interpretação. A dificuldade não estava na capacidade, mas na leitura feita dela. Esse reposicionamento modifica a função da memória, permitindo que deixe de operar como evidência de inadequação e passe a ser compreendida como um ponto de inflexão na construção da autoimagem.
Casos como esse evidenciam a necessidade de ampliar a compreensão sobre superdotação, especialmente em mulheres adultas. Mais do que identificar altas capacidades, é essencial compreender como essas capacidades foram interpretadas ao longo do desenvolvimento. Em muitos casos, o sofrimento não está na ausência de potencial, mas na dificuldade de reconhecer a própria superdotação como parte legítima da identidade.
Nem toda insegurança nasce da falta de capacidade, pois em muitos casos ela se estrutura a partir da dificuldade de reconhecer a própria superdotação, especialmente quando esse funcionamento não foi compreendido ou validado ao longo do desenvolvimento.
Esse reconhecimento, quando acontece de forma consistente e fundamentada, não apenas reorganiza a leitura das experiências passadas, mas também amplia de maneira significativa as possibilidades de posicionamento no presente, permitindo uma relação mais integrada com o próprio potencial.
Se essa reflexão fez sentido para você, entre em contato e considere iniciar uma avaliação em superdotação, por meio da qual será possível compreender de forma técnica e aprofundada o seu funcionamento cognitivo e emocional, reorganizando a forma como você se percebe e se posiciona diante das suas próprias capacidades.