“Eu tenho uma boa carreira, uma família que amo, estabilidade financeira e conquistei muito mais do que imaginava quando era jovem. Mas, ainda assim, sinto que não pertenço a lugar nenhum.” Essa frase foi dita por um adulto superdotado durante uma consulta, mas poderia facilmente representar a experiência de muitas outras pessoas com altas habilidades/superdotação.
Ao longo dos anos, tenho observado que o sentimento de deslocamento não desaparece necessariamente com o sucesso acadêmico, profissional ou financeiro. Pelo contrário, muitas vezes ele permanece silencioso, acompanhando a pessoa mesmo quando tudo parece estar funcionando bem aos olhos dos outros.
Existe uma crença bastante difundida de que pessoas inteligentes sofrem menos porque possuem mais recursos para compreender situações complexas e resolver problemas. No entanto, a experiência clínica sugere algo diferente. A inteligência pode facilitar a aprendizagem, ampliar oportunidades e favorecer o desempenho em diversas áreas da vida, mas não elimina necessidades humanas fundamentais, como pertencimento, conexão emocional e reconhecimento. O fato de alguém compreender profundamente o mundo não significa que se sentirá compreendido por ele. E é justamente nessa diferença que muitos adultos superdotados encontram parte de seu sofrimento, especialmente quando questões relacionadas à superdotação e saúde mental permanecem sem identificação adequada.
Ao revisitar suas histórias, muitos adultos superdotados percebem que a sensação de serem diferentes começou muito cedo. Desde a infância, era comum apresentarem interesses incomuns, questionamentos profundos ou preferência por conversas com pessoas mais velhas. Para evitar julgamentos ou facilitar a convivência, muitos aprenderam a esconder partes importantes de si mesmos, adaptando comportamentos, reduzindo sua intensidade e evitando expor pensamentos mais complexos. Embora essa estratégia frequentemente favoreça a integração social e profissional, ela também pode gerar uma sensação persistente de não pertencimento. Essa experiência, frequentemente associada à superdotação em adultos, contribui para uma forma silenciosa de isolamento e solidão na superdotação.
Para muitos adultos superdotados, o sucesso não elimina a sensação de deslocamento. Durante anos, acreditam que conquistas acadêmicas, profissionais ou financeiras finalmente lhes proporcionarão pertencimento e realização. Contudo, mesmo após alcançar esses objetivos, frequentemente percebem que algo continua faltando. Isso acontece porque o sofrimento não está necessariamente relacionado à falta de sucesso, mas à necessidade de ser compreendido em sua autenticidade. Surge então uma forma de solidão na superdotação: estar cercado de pessoas e, ainda assim, sentir que poucos compreendem verdadeiramente sua forma de pensar, sentir e perceber o mundo.
A intensidade emocional também desempenha um papel importante nessa vivência. Durante muito tempo, a superdotação foi associada apenas ao desempenho intelectual, deixando em segundo plano aspectos emocionais e subjetivos. Entretanto, muitas pessoas com superdotação na vida adulta experimentam emoções de forma profunda e intensa. Sentem alegria, tristeza, amor, frustração e indignação com uma intensidade que nem sempre é compreendida por aqueles ao seu redor. Quando essa característica é interpretada como exagero, fragilidade ou imaturidade, a pessoa pode crescer acreditando que existe algo inadequado em sua maneira de sentir, quando na realidade está apenas vivenciando o mundo de forma mais intensa.
Para muitos adultos, a identificação da superdotação em adultos acontece tardiamente, frequentemente após a avaliação de um filho ou durante um processo terapêutico. Essa descoberta costuma ser acompanhada por sentimentos ambivalentes. Há alívio ao encontrar uma explicação coerente para experiências que os acompanham desde a infância, mas também pode haver tristeza ao perceber quantos anos foram vividos sem compreensão adequada. Ainda assim, compreender a própria superdotação em adultos costuma permitir uma releitura da trajetória de vida, ajudando a transformar experiências antes vistas como falhas pessoais em características legítimas de seu funcionamento.
Talvez uma das descobertas mais importantes para muitos adultos superdotados seja perceber que o problema nunca foi ser diferente. Grande parte do sofrimento relacionado à superdotação em adultos surge quando alguém passa anos tentando se adaptar a ambientes que não compreendem sua intensidade, curiosidade ou forma de pensar. O verdadeiro desafio não é eliminar essas características, mas encontrar espaços onde elas possam existir de maneira autêntica. Afinal, pertencimento não significa ser igual aos outros, mas sentir-se aceito sem precisar esconder quem você realmente é uma reflexão central quando falamos sobre superdotação e saúde mental.
E se você se identificou com esta experiência?
Se você chegou até aqui sentindo que parte desta história também é sua, talvez seja o momento de compreender melhor seu funcionamento cognitivo, emocional e comportamental. Muitos adultos passam décadas acreditando que são apenas “diferentes”, “intensos” ou “complicados”, quando na realidade podem apresentar características compatíveis com altas habilidades/superdotação.
Uma avaliação da superdotação realizada por profissionais especializados pode ajudar a compreender sua trajetória, identificar potencialidades, reconhecer desafios emocionais e construir estratégias mais adequadas para sua vida pessoal, acadêmica e profissional.
Agende sua avaliação especializada e descubra se sua história pode estar relacionada à superdotação. Compreender quem você é pode ser o primeiro passo para construir uma relação mais saudável consigo mesmo e com sua própria trajetória.
Por Damião Silva — Psicólogo, Neuropsicólogo Pesquisador em Altas Habilidades/Superdotação e Pessoa com Altas Habilidades/Superdotação