“Eu sabia a resposta, mas preferi ficar quieto.”
À primeira vista, essa frase pode parecer contraditória quando pensamos em uma pessoa com altas habilidades/superdotação. Se alguém aprende rapidamente, estabelece relações complexas ou possui conhecimento aprofundado sobre determinados assuntos, seria esperado que demonstrasse essas capacidades. Na prática, porém, potencial e expressão do potencial não são a mesma coisa. Algumas crianças, adolescentes e adultos aprendem que demonstrar o que sabem também pode produzir consequências sociais.
Ser chamado de “gênio”, perceber o desconforto dos colegas, receber expectativas elevadas dos adultos ou encontrar pouca reciprocidade para seus interesses pode levar uma pessoa a regular não apenas o que diz, mas quanto de suas capacidades e interesses permite que os outros conheçam. Isso não significa que esconder capacidades seja uma característica da superdotação, mas que sua expressão pode ser influenciada pelas experiências de pertencimento, aceitação e segurança interpessoal.
Quando saber também produz uma escolha social
Imagine uma criança que frequentemente sabe as respostas do professor. Inicialmente, levanta a mão e participa com entusiasmo. Com o tempo, percebe reclamações dos colegas ou escuta comentários como “você sabe tudo”. Na pergunta seguinte, continua sabendo a resposta, mas prefere permanecer em silêncio. Pode ter ocorrido uma aprendizagem social bastante concreta: mostrar determinada capacidade parece ter um custo naquele ambiente.
Todos ajustamos nosso comportamento ao contexto, escolhendo quando falar, como explicar uma ideia e quanto aprofundar determinado assunto. Essa flexibilidade faz parte da competência social. A atenção é necessária quando essa adaptação deixa de ser uma escolha e passa a exigir que a pessoa esconda sistematicamente competências, interesses ou aspectos importantes de si para conseguir pertencer.
Na escola, potencial e desempenho nem sempre aparecem juntos
A identificação das altas habilidades/superdotação não deve depender exclusivamente daquilo que o estudante demonstra espontaneamente em sala de aula. Uma criança pode possuir recursos cognitivos elevados e, ainda assim, responder apenas o necessário, evitar participar ou não revelar conhecimentos adquiridos fora da escola. Em alguns casos, percebe rapidamente qual é o nível esperado naquele ambiente e passa a funcionar dentro desse limite.
Por isso, não demonstrar determinada capacidade o tempo todo não significa não possuí-la. Da mesma forma, desempenho acadêmico elevado, isoladamente, não caracteriza superdotação. A identificação deve integrar história do desenvolvimento e aprendizagem, interesses, produções, desempenho, características cognitivas, informações familiares e escolares e, quando pertinente, avaliação psicológica e educacional especializada.
Um adolescente que começou a “não saber”
Acompanhei um adolescente com recursos intelectuais elevados e interesses aprofundados. Individualmente, a complexidade de seu raciocínio aparecia com facilidade; na escola, entretanto, havia aprendido a simplificar respostas, esconder conhecimentos e, algumas vezes, dizer que não sabia.
O objetivo não era fazê-lo “participar mais”, mas compreender por que mostrar suas capacidades havia deixado de ser socialmente seguro. Demonstrar o que sabia fazia com que se percebesse diferente e antecipasse reações que desejava evitar. Diminuir a expressão de suas capacidades havia se tornado uma estratégia de adaptação ao grupo.
Se olhássemos apenas para seu comportamento, poderíamos interpretá-lo como desinteressado. A questão central, porém, era outra: “como ajudá-lo a construir pertencimento sem precisar diminuir aquilo que é capaz de fazer?”
“Mas ele não quer chamar atenção”
Na adolescência, pertencer ao grupo de pares ganha especial importância. Alguns jovens podem modificar o vocabulário, evitar determinados interesses ou esconder o desempenho quando percebem que essas características dificultam sua aproximação com os colegas.
Isso não é universal na superdotação. Ansiedade social, rejeição, bullying, personalidade, perfeccionismo e condições do neurodesenvolvimento também precisam ser consideradas. Por isso, pode ser mais útil investigar: “o que esse adolescente aprendeu que acontece quando mostra aquilo que sabe?”
E quando esconder-se atravessa a vida adulta?
Adultos também podem aprender a regular sua expressão intelectual. Atendi uma adulta que havia desenvolvido grande capacidade de “ler o ambiente” antes de decidir quanto poderia mostrar de si. Simplificava explicações, evitava compartilhar alguns interesses e monitorava se estava “falando demais” ou sendo “intensa demais”. Conseguia circular socialmente, mas frequentemente não se sentia verdadeiramente conhecida.
No acompanhamento, foi importante diferenciar flexibilidade social de autoapagamento. Adaptar a comunicação é uma competência; sentir que é necessário diminuir continuamente aspectos de si para preservar vínculos é diferente. O trabalho envolveu compreender quais adaptações eram escolhas flexíveis e quais funcionavam como estratégias rígidas de proteção contra rejeição.
Adaptar-se é diferente de esconder-se
Flexibilidade significa compreender o contexto e escolher como comunicar uma ideia. A atenção aumenta quando crianças, adolescentes ou adultos evitam sistematicamente interesses, conhecimentos ou realizações porque antecipam rejeição ou afastamento.
Nesses casos, precisamos compreender a função desse comportamento e seu custo emocional, sem atribuí-lo automaticamente à superdotação. Ansiedade social, bullying, autoestima, perfeccionismo, habilidades sociais, TDAH, TEA e outras condições também podem estar envolvidas e precisam ser consideradas no diagnóstico diferencial.
Talvez a pergunta não seja “por que ele não mostra?”
Quando uma criança possui recursos elevados, mas raramente os demonstra, talvez seja mais importante perguntar: “ela sente que este é um ambiente seguro para mostrar quem é e aquilo que sabe?”
Desenvolver o potencial não significa exigir demonstrações constantes de capacidade. Significa construir ambientes nos quais a pessoa possa aprender, errar, perguntar, não saber, discordar e demonstrar aquilo que sabe sem precisar escolher continuamente entre competência e pertencimento.
Quando buscar avaliação ou acompanhamento psicológico?
Quando crianças, adolescentes ou adultos escondem sistematicamente suas capacidades ou apresentam sofrimento relacionado ao pertencimento, pode ser importante compreender o que sustenta esse comportamento.
A avaliação psicológica ou neuropsicológica pode auxiliar na compreensão das altas habilidades/superdotação, do funcionamento socioemocional e de possíveis condições associadas. Quando há sofrimento emocional, ansiedade, dificuldades de pertencimento ou autoestima, a psicoterapia pode ser indicada.
No Instituto UnicaMente, realizamos avaliação e acompanhamento psicológico de crianças, adolescentes e adultos, além de orientação às famílias e escolas.
Por Damião Silva
Psicólogo, Neuropsicólogo, Pedagogo e Pesquisador em Altas Habilidades/Superdotação.


