“Eu sabia o que precisava fazer, mas naquele momento acabei fazendo exatamente o contrário.”
Essa é uma experiência que escuto com frequência no dia a dia clínico e nos momentos de orientação de carreira, quando adultos tentam compreender decisões profissionais, conflitos ou mudanças no próprio desempenho. Muitas vezes, são pessoas experientes e competentes que percebem que não funcionam da mesma maneira quando submetidas a níveis elevados de pressão e estresse.
Isso nos leva a uma questão importante: por que, justamente quando mais precisamos pensar com clareza, podemos ter maior dificuldade para tomar boas decisões?
Nosso funcionamento cognitivo não acontece de forma independente das emoções, do corpo e do ambiente. Sob pressão, a maneira como utilizamos atenção, memória, controle dos impulsos e flexibilidade pode se modificar. Compreender o que acontece com o cérebro sob pressão ajuda a entender por que ter conhecimento e experiência nem sempre é suficiente para produzir a melhor resposta em determinadas circunstâncias.
Estresse nem sempre é o problema
O estresse faz parte da experiência humana e não deve ser compreendido automaticamente como algo negativo. Diante de uma demanda importante, certo nível de ativação pode aumentar o estado de alerta e mobilizar recursos para responder à situação.
A dificuldade aparece quando as exigências se tornam excessivas, várias demandas competem simultaneamente por nossos recursos ou a pressão deixa de ser circunstancial e passa a fazer parte da rotina. Uma pessoa pode realizar uma tarefa com tranquilidade em determinado contexto e encontrar dificuldade para fazer a mesma coisa quando se sente ameaçada, avaliada ou excessivamente pressionada. O conhecimento continua existindo, mas as condições em que precisa ser utilizado mudaram.
Quando a preocupação começa a disputar nossa atenção
Imagine alguém participando de uma reunião importante. Enquanto acompanha o que está sendo discutido, também pensa na possibilidade de cometer um erro, na reação da liderança, no prazo que está terminando e nas consequências de um resultado insatisfatório. Todas essas informações passam a disputar recursos cognitivos.
Sob pressão, nossa atenção pode se orientar mais intensamente para aquilo que percebemos como urgente ou ameaçador. Em problemas complexos, porém, precisamos considerar diferentes informações, comparar alternativas e antecipar consequências. Quando parte importante dos nossos recursos está ocupada pela ameaça percebida, pensar de maneira mais ampla pode se tornar mais difícil.
É algo que também observo no consultório e nas avaliações psicológicas e neuropsicológicas. Quando alguém relata dificuldade de concentração, não basta olhar apenas para a atenção. Sono, ansiedade, humor, sobrecarga, características do neurodesenvolvimento, condições de saúde e contexto de vida também precisam ser considerados.
Emoções fazem parte da tomada de decisão
Razão e emoção nem sempre funcionam como forças opostas. As emoções participam da maneira como interpretamos situações, avaliamos riscos, estabelecemos prioridades e atribuímos importância às experiências.
A dificuldade pode aparecer quando a intensidade emocional reduz nossa capacidade de considerar alternativas e uma resposta imediata passa a parecer a única possível. É quando respondemos impulsivamente a uma mensagem, interrompemos alguém ou tomamos uma decisão apenas para encerrar uma situação desconfortável. Depois, quando a ativação emocional diminui, outras possibilidades parecem mais evidentes.
Por isso, autorregulação emocional não significa deixar de sentir ou controlar todas as emoções. Significa ampliar nossa capacidade de reconhecer e compreender aquilo que sentimos e desenvolver recursos para que uma emoção não precise se transformar automaticamente em comportamento.
Por que pessoas inteligentes também tomam decisões ruins?
Essa pergunta aparece com frequência nas conversas sobre carreira. Algumas pessoas construíram parte importante de sua identidade em torno da capacidade intelectual, da competência e da facilidade para resolver problemas. Quando começam a apresentar dificuldades ou tomam decisões das quais se arrependem, podem interpretar isso como fracasso pessoal.
Entretanto, inteligência não nos torna imunes ao estresse, à privação de sono, à ansiedade, à sobrecarga ou ao esgotamento. Uma pessoa pode possuir excelentes recursos cognitivos e, ao mesmo tempo, estar em condições que dificultam a expressão desses recursos.
No trabalho, a pressão nem sempre aparece como uma grande crise
Quando pensamos em pressão no trabalho, podemos imaginar uma apresentação decisiva, uma negociação difícil ou uma crise. No entanto, parte da sobrecarga relatada por adultos no contexto clínico é construída de maneira mais silenciosa.
Ela pode surgir na sucessão de urgências, nas interrupções constantes, no excesso de mensagens, nos conflitos, nas mudanças frequentes, nas metas pouco claras ou na sensação de precisar permanecer disponível o tempo todo. Isoladamente, essas situações podem parecer administráveis, mas sua combinação e repetição podem produzir um cenário diferente.
Quando isso se torna rotina, falar sobre saúde mental no trabalho não pode significar apenas ensinar o profissional a suportar mais pressão. Estratégias individuais de organização, descanso e autorregulação são importantes, mas não substituem a necessidade de compreender as condições em que o trabalho acontece.
Funcionar melhor não significa suportar qualquer coisa
Quando percebemos uma decisão ruim ou uma mudança no desempenho, talvez seja mais útil perguntar em quais condições estávamos tentando decidir. Quantas demandas disputavam nossa atenção? Estávamos emocionalmente sobrecarregados? Havia tempo para considerar alternativas? Existia segurança para pedir ajuda, discordar ou reconhecer a necessidade de mais tempo?
Essas perguntas não retiram nossa responsabilidade pelas escolhas. Elas reconhecem que compreender o comportamento também exige compreender as condições em que ele acontece.
Se mudanças na atenção, nas emoções, na autorregulação ou na capacidade de tomar decisões começam a interferir persistentemente na vida pessoal ou profissional, pode ser importante compreender os fatores envolvidos, em vez de responder a essas dificuldades apenas aumentando a cobrança sobre si mesmo.
Quer compreender melhor como você funciona?
Se estresse, emoções, autorregulação ou tomada de decisão têm impactado sua vida pessoal ou profissional, uma avaliação pode ajudar a compreender melhor seu funcionamento.
Já pensou em avaliar sua inteligência emocional? A avaliação pode contribuir para identificar recursos e dificuldades relacionados à compreensão e ao manejo das emoções. Também realizo avaliação psicológica e neuropsicológica, conforme a necessidade de cada caso.
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Saúde mental, inteligência emocional, autorregulação, pressão e tomada de decisão também impactam relações, lideranças e equipes.
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Por Damião Silva
Psicólogo • Neuropsicólogo • Pedagogo • Pesquisador


