Descobri a superdotação do meu filho e comecei a reconhecer minha própria história

“Eu marquei a avaliação porque meu filho parecia muito diferente das outras crianças. No final, quem saiu com mais perguntas sobre si mesmo fui eu.”

Essa frase resume uma das experiências mais marcantes que observo na prática clínica. Não é raro que pais e mães procurem uma avaliação da superdotação para compreender o funcionamento de um filho e, durante esse processo, comecem a reconhecer aspectos importantes de sua própria história. Aquilo que inicialmente parecia ser apenas uma investigação sobre o desenvolvimento infantil transforma-se, muitas vezes, em um reencontro com experiências pessoais que permaneceram sem explicação durante décadas.

Ao longo dos anos, tenho acompanhado inúmeros adultos que nunca imaginaram apresentar altas habilidades/superdotação. Muitos construíram carreiras bem-sucedidas, constituíram família e aprenderam a lidar com as exigências da vida adulta. Ainda assim, carregavam a sensação persistente de serem diferentes, intensos ou de nunca se encaixarem completamente nos ambientes em que viviam. Foi apenas ao conhecerem as características do próprio filho que começaram a perceber que aquelas descrições também falavam sobre eles.

Esse reconhecimento costuma acontecer de maneira quase espontânea. Enquanto escutam a devolutiva da avaliação ou leem sobre superdotação em adultos, muitos começam a recordar situações da infância que haviam sido esquecidas ou minimizadas. Lembram-se da curiosidade intensa, do interesse por assuntos incomuns, da facilidade para aprender determinados conteúdos, das perguntas constantes, da dificuldade em encontrar pares com interesses semelhantes e da sensação recorrente de não pertencimento. Pela primeira vez, essas memórias deixam de parecer episódios isolados e passam a formar uma narrativa coerente.

Durante muito tempo, esses adultos acreditaram que eram apenas “diferentes”. Alguns foram considerados excessivamente questionadores, sensíveis, distraídos ou perfeccionistas. Outros cresceram ouvindo que pensavam demais, sentiam demais ou complicavam situações simples. Como nunca receberam uma explicação consistente para essas características, aprenderam a adaptar seus comportamentos para facilitar a convivência. Essa adaptação permitiu que alcançassem sucesso acadêmico e profissional, mas frequentemente veio acompanhada de uma sensação silenciosa de desconexão consigo mesmos.

Outro aspecto que chama atenção é que muitos pais procuram compreender o filho porque reconhecem nele dificuldades emocionais muito semelhantes às que viveram na infância. A intensidade das emoções, o senso de justiça, a necessidade de profundidade nas relações, o perfeccionismo e a sensação de não pertencimento despertam lembranças que estavam adormecidas. Em diversos casos, a identificação da superdotação em adultos acontece justamente nesse momento, quando a história do filho funciona como um espelho capaz de revelar aspectos da própria trajetória.

Essa descoberta costuma provocar sentimentos bastante ambivalentes. Existe alívio por finalmente encontrar uma explicação para experiências que acompanharam toda a vida. Ao mesmo tempo, muitos adultos experimentam tristeza ao perceber quantos anos passaram acreditando que havia algo errado consigo. Não são raros os relatos de pessoas que se emocionam ao compreender que determinadas dificuldades não eram resultado de falta de esforço ou inadequação, mas da ausência de reconhecimento de suas altas habilidades/superdotação.

É importante compreender que reconhecer a própria superdotação não significa reinterpretar toda a vida a partir de um único rótulo. Também não significa atribuir todas as dificuldades a essa característica. O maior benefício desse processo é permitir uma compreensão mais integrada da própria história. Quando alguém entende como seu funcionamento cognitivo e emocional influenciou suas escolhas, relacionamentos e experiências, torna-se possível desenvolver uma relação mais compassiva consigo mesmo e construir estratégias mais adequadas para o presente.

Talvez uma das maiores contribuições desse processo seja interromper um ciclo que frequentemente atravessa gerações. Pais que compreendem sua própria história tendem a compreender melhor a experiência dos filhos. Em vez de interpretar determinados comportamentos apenas como exagero, desobediência ou imaturidade, passam a enxergá-los dentro de um contexto mais amplo de desenvolvimento. Isso favorece relações familiares mais empáticas, intervenções mais precoces e um ambiente no qual o potencial pode ser desenvolvido sem que a criança precise esconder quem é.

E se essa história também fez você lembrar da sua infância?

Se, ao acompanhar a avaliação da superdotação do seu filho, você começou a reconhecer aspectos da sua própria trajetória, talvez seja o momento de olhar para essa experiência com mais profundidade. A identificação da superdotação em adultos pode ajudar a compreender padrões que acompanharam sua vida desde a infância, reconhecer potencialidades, entender desafios emocionais e construir novas formas de lidar consigo mesmo.

Uma avaliação especializada para superdotação em adultos oferece informações importantes sobre seu funcionamento cognitivo, emocional e comportamental, permitindo que você compreenda sua história de maneira mais integrada. Em muitos casos, esse processo representa não apenas uma resposta para perguntas antigas, mas também o início de uma relação mais saudável consigo mesmo e com sua própria identidade.

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Por Damião Silva — Psicólogo, Neuropsicólogo, Pesquisador em Altas Habilidades/Superdotação e Pessoa com Altas Habilidades/Superdotação

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