Altas Habilidades/Superdotação Intelectual e Saúde Mental: como o alto QI influencia a vivência de traumas?

Por Damião Silva – Psicólogo e Neuropsicólogo Especialista em Altas Habilidades/Superdotação

A relação entre altas habilidades/superdotação (AH/SD) e saúde mental tem sido, historicamente, pouco explorada no campo clínico. Embora o alto desempenho intelectual costume ser visto como um fator de proteção em diferentes contextos, pesquisas recentes têm demonstrado que essa compreensão pode ser limitada e até prejudicial ao bem-estar emocional desses indivíduos.

Superdotação e saúde mental 

Uma contribuição importante nesse debate vem da tese de doutorado de Pamela D. Hunsberger (2022), desenvolvida na Immaculata University, nos Estados Unidos. O estudo teve como objetivo principal investigar como profissionais da saúde mental – incluindo psicólogos, psiquiatras e neuropediatras – percebem o impacto do alto QI na experiência de traumas emocionais.

A pesquisa partiu de três questões centrais: se o alto QI é considerado no processo diagnóstico, se é reconhecido como um fator de risco para o desenvolvimento de traumas e se as sobre-excitabilidades emocionais e cognitivas, frequentemente presentes em indivíduos superdotados, são levadas em conta nas avaliações clínicas. Essas perguntas refletem uma preocupação crescente sobre a forma como a superdotação é, ou não, contemplada nas práticas clínicas atuais.

Falta de reconhecimento clínico da vulnerabilidade emocional de superdotados

A hipótese da autora era clara: a maioria dos profissionais não reconhece o alto QI como um fator de vulnerabilidade emocional relevante. Esse desconhecimento, segundo Hunsberger, decorre principalmente da falta de uma definição clínica operacionalizada sobre o que é superdotação, além da ausência de formação específica sobre as particularidades emocionais desse grupo.

Os resultados da pesquisa, que envolveu 112 profissionais da saúde mental, confirmaram essa hipótese. Embora os participantes reconhecessem que pessoas com altas habilidades não enfrentam mais eventos traumáticos objetivos do que a população geral, ficou evidente que poucos consideram as reações emocionais intensificadas desses indivíduos como uma variável diagnóstica relevante.

Sobre-excitabilidades e o impacto na saúde mental de superdotados

Um dos achados mais significativos foi a constatação de que, mesmo diante de estímulos considerados comuns, as pessoas com altas habilidades podem apresentar respostas emocionais exacerbadas, frequentemente interpretadas de forma equivocada no contexto clínico. Esse quadro contribui para diagnósticos imprecisos, medicalizações desnecessárias e, sobretudo, para a invalidação da experiência subjetiva desses pacientes.

O estudo também reforça a importância de considerar as sobre-excitabilidades, conceito originalmente descrito por Dabrowski (1964), como um fator que amplia a sensibilidade emocional e cognitiva de pessoas superdotadas. Ignorar essas características pode levar a uma compreensão distorcida de sintomas como ansiedade, depressão ou dificuldades de regulação emocional.

A importância de capacitar profissionais de saúde mental sobre superdotação

As conclusões de Hunsberger apontam para a necessidade urgente de uma formação mais aprofundada dos profissionais da saúde mental quanto às especificidades da superdotação. O olhar clínico precisa ser ampliado para além dos critérios tradicionais de diagnóstico, contemplando o modo como o alto QI pode influenciar a forma de sentir, interpretar e reagir aos acontecimentos de vida.

Promover uma escuta clínica mais qualificada significa reconhecer que, para além da inteligência acima da média, estamos lidando com indivíduos que experimentam o mundo de maneira mais intensa e complexa. Essa perspectiva pode fazer a diferença entre um acompanhamento terapêutico efetivo e intervenções que, mesmo bem-intencionadas, acabam por reforçar o sofrimento emocional.

Orientação para famílias e acompanhamento psicológico especializado

Seja no contexto escolar, familiar ou clínico, compreender o impacto do alto QI nas experiências emocionais é um passo essencial para oferecer um cuidado mais humanizado e adequado às reais necessidades desses indivíduos.

Se você é pai, mãe ou responsável por uma criança ou adolescente superdotado que tem apresentado intensidades emocionais, ansiedade ou dificuldades de regulação, saiba que a avaliação psicológica especializada, a orientação parental e o acompanhamento terapêutico focado em altas habilidades podem fazer toda a diferença.

👉 Entre em contato para agendar uma avaliação ou uma consulta de orientação.

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