Por Mariana Moreira (@marimo.psi)
Lembro-me de questionamentos que fazia na infância: “Como pode cair água do céu e todos acharem isso normal?”; “Como pode uma pessoa nascer de outra?”; “Como as pessoas conseguem conviver com essa informação sem achar a coisa mais incrível, genial e fora do comum?”; “Por que existem pessoas que moram na rua?”; “Como é possível alguém morrer de fome e frio?”; “Como dormir e acordar sabendo que existem pessoas que não conseguiram sequer tomar um copo de água no dia?”. Essas perguntas me causavam um tipo de atordoamento, fazendo com que a boca do meu estômago ardesse em dor de aflição e dúvida.
Hoje, mais de vinte e cinco anos depois, ainda vejo o mesmo brilho daquele olhar carregado de questões sobre o mundo em muitos dos meus pacientes – crianças, adultos e até mesmo idosos: superdotação! Na língua portuguesa, do ponto de vista morfológico, é um substantivo feminino formado pela junção do prefixo latino “super”, que significa “além de”, “superior”, e o sufixo “dotação”, derivado do verbo “dotar”, que significa fornecer ou equipar com alguma habilidade, qualidade ou recurso.
É fascinante como a capacidade humana de usar a linguagem para representar as coisas se manifesta. No entanto, essa palavra nunca teve espaço no vocabulário ou no imaginário das pessoas, no que diz respeito a mim. Nunca houve espaço para ao menos considerar essa possibilidade, no máximo “esforçada”! Superdotada? Impossível. Ela é só abusada mesmo! “Neguinha metida”! “Ela se acha”.
A socialização escolar de uma criança com superdotação
Ao falar sobre isso em termos de imagem, lembro-me automaticamente de uma das minhas únicas fotos da pré-escola. Essa foi uma época muito aguardada por mim, tendo iniciado aos cinco anos. Minha mãe relata que a demora se deu por temer que eu não me adaptasse ou que causasse problemas na escola, dado que era uma criança de muita energia.
Tive pouquíssimos amigos nessa época, dos quais lembro vagamente. Curiosamente, o início na escola marcou também o fim do período de amamentação, um fato que sempre emerge em minhas reflexões sobre a necessidade de algo tão forte e potente quanto o conhecimento para que houvesse a possibilidade de trocar o “mamá” pela escola.
E aqui ressalto a potência, a fascinação e o peso que o conhecimento exerceu sobre mim desde minha entrada na escola. Ela pode ser um lugar de muito sofrimento e descontentamento para crianças com superdotação. Em certa medida, isso também ocorreu comigo, mas, em geral, consegui encontrar estratégias de sobrevivência, graças ao bom relacionamento que tinha com meus professores.
Os relacionamentos
Quem me conhece sabe que valorizo as pessoas, o afeto, a troca e é assim que me fortaleço. Por outro lado, muitos alunos me detestavam por minha energia expansiva no falar, agir e expressar-me, o que, aos olhos deles, soava arrogante e pretensioso. Fui estigmatizada como “estranha”, “maluca”, entre outros. Sempre estratégica, a forma que encontrei para lidar com isso – muito por sentir tudo, o mundo, o outro, as energias, decodificar o que ultrapassa a palavra – foi me desculpar, me justificar, tentar me diminuir, para que o outro se sentisse mais à vontade.
O que as ausências dos outros dizem sobre nós e nos convidam a olhar para as nossas próprias ausências? Este é um dilema para pessoas com superdotação e com alta sensibilidade emocional, que se misturam com o outro a ponto de não saber o que é dele e o que é seu, gerando processos de ruminação e alto gasto energético. Cada pessoa superdotada, a partir de sua subjetividade, segue vivendo a superdotação do jeito que faz sentido para si, acomodando-se em seu próprio corpo e fazendo o possível para simplesmente ser. Não o ser baseado nas imposições do mundo, mas sim no sentido de existir. E isso, meus caros, vai muito além de sobreviver.