
Por Damião Silva
Quem convive com pessoas superdotadas – sejam crianças, adolescentes ou adultos – costuma perceber traços muito além da inteligência acadêmica. Curiosidade insaciável, imaginação fértil, emoções intensas e uma sensibilidade que parece captar o mundo com mais profundidade. Mas o que explica essas vivências tão ampliadas?
Um estudo de Shelagh Gallagher (2021) traz luz a esse tema ao investigar a relação entre um traço de personalidade chamado Abertura à Experiência e as sobre-excitabilidades – um conceito da psicologia do desenvolvimento que descreve formas ampliadas de sentir, pensar e reagir ao ambiente.
O que é sobre-excitabilidade?
O conceito de sobre-excitabilidade foi desenvolvido pelo psicólogo polonês Kazimierz Dabrowski, dentro da sua Teoria da Desintegração Positiva. No contexto da superdotação, ele descreve as sobre-excitabilidades como padrões de resposta aumentada, mais intensa e qualitativamente diferenciada a estímulos internos e externos. Em outras palavras, trata-se de uma forma de vivenciar o mundo com maior intensidade emocional, cognitiva, sensorial ou física.
- Intelectual: sede de conhecimento, questionamento constante.
- Imaginativa: criatividade, mundo interno rico e ativo.
- Emocional: sentimentos profundos, empatia elevada.
- Sensorial: percepção aguçada de sons, cheiros, texturas.
- Psicomotora: energia física acima da média.
O estudo de Gallagher aponta que pessoas com alta Abertura à Experiência, traço de personalidade comum, entre superdotados tendem a apresentar níveis mais elevados de sobre-excitabilidade, principalmente nas dimensões intelectual, imaginativa e emocional.
Por que isso importa?
Essas intensidades podem ser grandes aliadas na criatividade, na aprendizagem e na construção de soluções inovadoras. Mas também podem gerar sofrimento, principalmente quando não são compreendidas ou acolhidas adequadamente, seja na escola, no trabalho ou nas relações pessoais.+
Ambientes muito rígidos, expectativas sociais limitantes ou falta de reconhecimento podem levar a sentimentos de inadequação, ansiedade e até quadros depressivos.
Quando buscar apoio psicológico?
Se você (ou seu filho) percebe que a curiosidade virou ansiedade, que a imaginação transbordante virou isolamento, ou que as emoções estão difíceis de manejar, é hora de olhar com mais cuidado para isso.
Uma avaliação psicológica especializada pode ajudar a mapear essas intensidades e entender como elas fazem parte da sua trajetória de desenvolvimento. A psicoterapia, por sua vez, pode ser o espaço seguro para trabalhar questões emocionais, fortalecer estratégias de regulação e transformar essa sensibilidade em potência.
Seja você um adulto, criança ou um jovem superdotado, saiba: entender a própria intensidade é o primeiro passo para viver de forma mais equilibrada e autêntica.
Se quiser, podemos conversar sobre o melhor caminho para o seu caso.
Referência
Gallagher, S. (2021). Openness to Experience and Overexcitabilities in a Sample of Highly Gifted Middle School Students. Roeper Review, 43(3), 162–172.