Assincronias no Desenvolvimento: uma leitura necessária para a compreensão de crianças com altas habilidades/superdotação

Por Damião Silva

Quando nos debruçamos sobre o desenvolvimento de crianças com altas habilidades/superdotação (AH/SD), é fundamental compreendê-las não apenas a partir de seus avanços cognitivos, mas sobretudo em sua complexidade humana. Uma das chaves para essa compreensão é o conceito de assincronia, termo que descreve o descompasso entre diferentes áreas do desenvolvimento infantil: intelectual, emocional, social, físico e moral. Longe de representar uma patologia, a assincronia é uma marca do desenvolvimento singular dessas crianças e ignorá-la significa negligenciar dimensões cruciais de sua saúde mental e educacional.

De maneira geral, podemos compreender a assincronia a partir de duas grandes categorias: assincronias internas e assincronias externas. As assincronias internas referem-se aos conflitos e desencontros que ocorrem dentro do próprio sujeito, entre suas dimensões cognitivas, emocionais, motoras e éticas. Já as assincronias externas dizem respeito ao descompasso entre o funcionamento da criança e o que é esperado pelo ambiente escolar, familiar e social. Ambas coexistem e se entrelaçam e seu reconhecimento é essencial para evitar diagnósticos equivocados, interpretações reducionistas e práticas pedagógicas excludentes.

Há ainda a assincronia intrapessoal, uma das mais silenciosas e, por isso, frequentemente negligenciada. Trata-se do conflito entre a autoconsciência precoce, típica de muitas crianças superdotadas, e a imaturidade emocional para lidar com os sentimentos complexos que essa autoconsciência gera. Crianças que se cobram por coerência moral, que sofrem por não serem “perfeitas”, que se julgam culpadas por falhas mínimas. São crianças cuja profundidade interna não encontra ainda os recursos para se regular.

Assincronias Internas 

Entre as assincronias internas, a mais evidente talvez seja a cognitiva-emocional. É o caso da criança que pensa como um adolescente que compreende fenômenos complexos, formula perguntas existenciais, mas que emocionalmente ainda precisa de acolhimento diante de uma derrota em um jogo simples ou em um erro ortográfico. Essa discrepância pode levar à frustração crônica, sobretudo quando o entorno espera dessa criança um autocontrole proporcional ao seu raciocínio. 

Também no campo das assincronias internas, encontramos a cognitiva-motora, bastante comum no contexto escolar. Crianças com ideias elaboradas e vocabulário refinado podem apresentar dificuldades na escrita, no recorte ou em atividades manuais simples. Esse desencontro entre pensamento e execução gera sentimentos de impotência e desvalorização pessoal. Ao não conseguirem “materializar” suas ideias, essas crianças sentem que falharam não no conteúdo, mas na forma.

Assincronias externas 

Na esfera das assincronias externas, destacam-se a cognitiva-social e a potencial-desempenho. A primeira refere-se à dificuldade de interagir com os pares da mesma idade. A criança superdotada pode se sentir deslocada em rodas de conversa infantis, preferindo o diálogo com adultos ou buscando a solidão como forma de preservação. Frequentemente é interpretada como arrogante, autoritária ou antissocial — quando, na verdade, sofre por não se sentir compreendida.

Já a assincronia entre potencial e desempenho ocorre quando o ambiente escolar não consegue captar ou estimular o potencial da criança. São casos em que o QI elevado ou a curiosidade intelectual não se traduzem em boas notas, produção escrita ou comportamento escolar satisfatório. A criança, rotulada como desinteressada ou distraída, passa a duvidar de suas próprias capacidades. O problema não está nela, mas na ausência de mediação entre o que ela é e o que o sistema escolar exige.

Por fim, cabe mencionar a assincronia temporal, que permeia tanto o mundo interno quanto o externo da criança. É vivenciada por aquelas que experienciam temas éticos, existenciais e morais muito antes do tempo esperado. São crianças de 5 ou 6 anos que perguntam sobre morte, injustiça, desigualdade. Que sofrem intensamente com o desmatamento, com a dor alheia ou com o bullying, mesmo quando não são diretamente atingidas. Sua sensibilidade é precoce, intensa e muitas vezes solitária.

Por intervenções mais humanas

Reconhecer as diferentes formas de assincronia é um passo fundamental para construirmos intervenções mais humanas, contextualizadas e eficazes. Como psicólogo clínico e pesquisador na área da superdotação, tenho observado que quando essas crianças são acolhidas em sua complexidade não apenas florescem cognitivamente, mas também encontram alívio emocional e vínculos verdadeiros. Elas não precisam ser “consertadas” precisam ser compreendidas.

A educação verdadeiramente inclusiva começa quando deixamos de perguntar apenas “o que essa criança sabe?”, e passamos a nos perguntar: “como ela sente, vive e percebe o mundo?”. 

Negar direitos e atendimento educacional especializado em função das assincronias é desumano, cruel e criminoso. Se o seu filho (a) está passando por essa situação, nós podemos ajudar!

Referências

Gross, M. U. M. (2004). Exceptionally gifted children (2nd ed.). Routledge.

Pfeiffer, S. I. (2017). Serving the gifted: Evidence-based clinical and psychoeducational practice. Routledge.

Silva, D.(2025). Descobrindo a superdotação e como lidar com as emoções (1ª ed.). [Obra bilíngue português-espanhol].

Silverman, L. K. (2007). Asynchronous development: A key to counseling the gifted.





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