Seu filho é superdotado, mas não faz a lição de casa?

“Ele passa horas pesquisando sobre astronomia, inteligência artificial e dinossauros, mas não consegue fazer uma atividade de matemática de quinze minutos.”

“Quando finalmente senta para fazer, termina tudo em poucos minutos. O problema é conseguir começar.”

Essas são algumas das frases que mais escuto no consultório. Para muitos pais, essa situação parece contraditória. Afinal, estamos falando de crianças que aprendem rapidamente, apresentam grande curiosidade intelectual e frequentemente surpreendem os adultos pela profundidade de seus conhecimentos. Como explicar que uma criança com tantas capacidades encontre tanta dificuldade para realizar a lição de casa? A prática clínica mostra que inteligência não garante organização, autonomia ou motivação. Por isso, quando uma criança inteligente evita as tarefas escolares, a primeira conclusão não deveria ser preguiça.

Recentemente acompanhei um menino com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) que ilustra bem essa situação. Era uma criança extremamente curiosa, apaixonada por ciência e tecnologia, com raciocínio sofisticado, excelente capacidade de argumentação e grande facilidade para aprender conteúdos novos. Apesar disso, a lição de casa era motivo diário de conflitos familiares.

A mãe relatava que precisava lembrá-lo repetidamente sobre as atividades escolares. A resposta era quase sempre a mesma: “Daqui a pouco eu faço”. O curioso é que, quando finalmente sentava para realizar a tarefa, concluía tudo rapidamente e com boa qualidade. O problema não estava em fazer a atividade, mas em começar.

Essa diferença é fundamental porque muitas famílias confundem dificuldade de execução com dificuldade de aprendizagem. Fazer a lição de casa exige muito mais do que dominar o conteúdo. A criança precisa planejar, organizar materiais, administrar o tempo, sustentar a atenção e lidar com pequenas frustrações. Em outras palavras, depende de habilidades executivas que nem sempre se desenvolvem no mesmo ritmo que a inteligência.

Em muitos casos, a dificuldade surge porque a atividade proposta não representa um desafio intelectual significativo para a criança. Isso é particularmente frequente entre alunos com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), que costumam aprender conteúdos em velocidade superior à média da turma. Quando a tarefa é percebida como repetitiva ou excessivamente simples, ela deixa de cumprir sua principal função para aquela criança: promover aprendizagem. O resultado é uma redução importante do engajamento e da motivação.

Não é raro ouvir comentários como: “Mas eu já entendi isso”, “Por que preciso fazer dez exercícios se aprendi no primeiro?” ou “Isso é perda de tempo”. Embora essas respostas possam soar como falta de compromisso, muitas vezes refletem uma necessidade legítima de desafio intelectual. O cérebro humano tende a se engajar quando encontra novidade, complexidade e significado. Quando esses elementos desaparecem, a motivação também tende a diminuir.

Entretanto, nem sempre estamos diante de uma situação de tédio ou desinteresse. Em algumas crianças, a dificuldade está relacionada ao perfeccionismo. Esse aspecto costuma surpreender os pais porque, à primeira vista, parece contraditório. Afinal, como uma criança tão capaz pode evitar justamente as atividades que tem condições de realizar? A resposta está no medo de errar.

Ao longo do desenvolvimento, muitas crianças com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) recebem reconhecimento constante por sua inteligência e desempenho. São elogiadas pelas notas, pela facilidade para aprender e pela capacidade de resolver problemas complexos. Aos poucos, podem associar seu valor pessoal à própria competência. Quando isso acontece, o erro deixa de ser parte natural da aprendizagem e passa a ser percebido como uma ameaça à identidade.

Nesses casos, a procrastinação funciona como uma forma de proteção emocional. Se a criança não começa a atividade, não precisa enfrentar a possibilidade de errar. No consultório, é comum encontrar crianças que passam horas adiando tarefas simples, não por incapacidade, mas para evitar a ansiedade de não corresponder às expectativas que acreditam que os outros têm sobre elas.

Em outras situações, a dificuldade está relacionada às funções executivas e à autorregulação. A criança sabe o que precisa fazer, entende a importância da tarefa e muitas vezes deseja concluí-la, mas encontra dificuldade para transformar intenção em ação. Esse padrão é frequente em crianças com TDAH, mas também pode ser observado em crianças com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), especialmente nos casos de dupla excepcionalidade.

O problema é que esse comportamento costuma ser mal interpretado. Os adultos enxergam resistência, desinteresse ou falta de esforço, enquanto a criança convive diariamente com cobranças, críticas e frustrações. Com o tempo, passa a ouvir que é preguiçosa, irresponsável ou desorganizada. Embora continue apresentando elevado potencial intelectual, começa a construir uma percepção negativa sobre si mesma.

Esse é um dos maiores riscos das interpretações simplistas. Quando observamos apenas o comportamento, deixamos de compreender o que está por trás dele. A questão central não é por que a criança não faz a lição de casa, mas por que uma criança capaz de realizá-la encontra tanta dificuldade para começar.

As respostas podem ser diversas. Em alguns casos, há tédio e falta de desafio; em outros, ansiedade, perfeccionismo ou dificuldades nas funções executivas. Também podem existir condições associadas, como TDAH ou dupla excepcionalidade. Por isso, compreender o funcionamento da criança é muito mais importante do que rotular seu comportamento.

Se a lição de casa se tornou uma fonte constante de conflitos, sofrimento ou desgaste familiar, pode ser importante investigar o que está acontecendo. Muitas vezes, a dificuldade não está na capacidade intelectual, mas em fatores emocionais, motivacionais ou executivos que precisam ser compreendidos adequadamente.

No Instituto ÚnicaMente, realizamos avaliações psicológicas e neuropsicológicas especializadas em Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), dupla excepcionalidade e desenvolvimento infantil. Afinal, muitas vezes o problema não é a lição de casa. O problema é que ninguém compreendeu ainda o que aquela criança está tentando comunicar através do seu comportamento.

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Por Damião Silva — Psicólogo, Neuropsicólogo Pesquisador em Altas Habilidades/Superdotação e Pessoa com Altas Habilidades/Superdotação

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