Meu filho é muito inteligente, mas parece não gostar da escola. O que pode estar acontecendo?

“Meu filho é muito inteligente, mas parece não ter interesse por nada na escola.”

Durante as avaliações neuropsicológicas que realizo, essa é uma das preocupações que mais escuto dos pais. Frequentemente, eles descrevem uma criança curiosa, criativa e capaz de aprender assuntos complexos por conta própria, mas que evita as tarefas escolares, demora para começar a lição de casa, não entrega atividades ou demonstra pouca disposição para estudar.

Em muitos casos, os pais chegam à avaliação preocupados com a possibilidade de TDAH, dificuldades de aprendizagem, preguiça ou falta de responsabilidade. Também é comum que se sintam culpados e questionem se foram permissivos demais ou se não conseguiram desenvolver hábitos adequados de estudo.

Entretanto, quando investigo a história escolar e o funcionamento cognitivo dessas crianças, frequentemente encontro uma situação mais complexa: elas não perderam necessariamente o interesse por aprender. Podem ter perdido o interesse pela maneira como a aprendizagem está sendo apresentada.

Aprender rapidamente não garante envolvimento com a escola

Existe uma expectativa social de que crianças com inteligência elevada sejam naturalmente excelentes estudantes: espera-se que realizem todas as atividades, mantenham notas altas, sejam organizadas e demonstrem entusiasmo constante pela escola. Na prática clínica, contudo, observo que essa associação nem sempre se confirma, pois uma criança pode apresentar raciocínio avançado, memória eficiente, vocabulário sofisticado e grande capacidade para compreender conceitos, mas demonstrar baixo envolvimento com tarefas repetitivas, previsíveis ou muito abaixo de seu nível de prontidão.

Facilidade para aprender e motivação escolar não são a mesma coisa. Muitas vezes, a criança compreende o conteúdo já na primeira explicação, mas precisa continuar acompanhando repetições destinadas à consolidação da aprendizagem da turma e, depois, ainda realizar diversas atividades semelhantes para demonstrar algo que já domina. Para alguns estudantes, essa repetição é necessária; para outros, pode produzir tédio, desconexão e a sensação de que permanecer na escola significa esperar que os demais cheguem a um lugar que eles já alcançaram.

O desinteresse nem sempre aparece como apatia

Quando converso com famílias e escolas, procuro explicar que a falta de desafio nem sempre se manifesta como apatia ou desinteresse evidente. Pelo contrário, ela pode assumir formas muito diferentes. Algumas crianças ficam agitadas, conversam durante as explicações, mexem em objetos ou interrompem o professor constantemente. Outras realizam as tarefas rapidamente, sem revisar, cometendo erros que não correspondem à sua capacidade. Há ainda aquelas que se tornam silenciosas: deixam de participar das aulas, param de fazer perguntas e, aos poucos, aprendem a esconder o que sabem para evitar chamar atenção ou parecerem diferentes dos colegas.

Em outros casos, o estudante passa a recusar atividades, perde materiais com frequência, procrastina, esquece tarefas ou afirma que a escola é “chata”, “inútil” ou que “não aprende nada de novo”. É importante destacar que esses comportamentos, por si só, não caracterizam altas habilidades/superdotação. No entanto, quando surgem associados à aprendizagem rápida, conhecimentos acima do esperado para a idade, intensa curiosidade intelectual e necessidade constante de desafios mais complexos, considero fundamental investigar se o currículo escolar está oferecendo oportunidades compatíveis com seu nível de desenvolvimento e potencial de aprendizagem.

Desinteresse pela atividade não é desinteresse pelo conhecimento

Durante as avaliações, costumo perguntar aos pais como a criança se comporta quando encontra um tema que realmente desperta seu interesse. Com frequência, eles relatam que o filho passa horas estudando astronomia, história, programação, animais, matemática ou outros assuntos por iniciativa própria, enquanto demonstra pouca disposição para realizar tarefas escolares repetitivas. Isso mostra que, muitas vezes, não existe uma perda global da motivação para aprender, mas uma diferença importante entre o envolvimento com atividades mecânicas e a dedicação diante de desafios que despertam curiosidade, autonomia e possibilidade de descoberta. Por isso, procuro diferenciar a criança que perdeu o interesse pela aprendizagem daquela que continua altamente motivada, mas não encontra significado nas tarefas propostas. Essa distinção é fundamental, pois muda completamente a forma de compreender seu comportamento e evita que ela seja rotulada como preguiçosa, desorganizada ou desinteressada, interpretações que podem gerar culpa, vergonha e uma persistente sensação de inadequação.

Nem toda desmotivação é falta de desafio

Apesar de essa hipótese ser importante, sempre ressalto que nem todo desinteresse escolar decorre da ausência de desafio.

Comportamentos semelhantes podem estar relacionados a ansiedade, dificuldades atencionais, problemas de sono, perfeccionismo, sintomas depressivos, dificuldades de aprendizagem, conflitos escolares, bullying ou alterações nas funções executivas. Além disso, uma criança pode apresentar altas habilidades e, simultaneamente, TDAH, TEA, transtorno específico da aprendizagem ou outra condição do neurodesenvolvimento.

Por isso, não considero adequado concluir que uma criança é superdotada apenas porque está entediada, assim como não considero correto interpretar todo desengajamento como preguiça ou desobediência.

É necessário compreender quando o comportamento ocorre, diante de quais tarefas, em quais ambientes e como ele se modifica quando o nível de desafio aumenta.

Compreender antes de cobrar

Quando percebo que os pais estão exaustos com a rotina escolar, costumo sugerir uma mudança de perspectiva: antes de perguntar “por que ele não faz?”, precisamos compreender “o que acontece com ele diante dessa tarefa?”. A atividade está fácil ou difícil demais? A criança já domina o conteúdo? Existe medo de errar, dificuldade para se organizar ou sofrimento emocional relacionado à escola? Compreender essas questões não significa diminuir as responsabilidades, mas tornar a intervenção mais assertiva. Quando identificamos os fatores que sustentam o desinteresse, conseguimos ajudar a criança a desenvolver organização, persistência e autonomia, ao mesmo tempo em que orientamos a escola a oferecer experiências de aprendizagem mais desafiadoras e compatíveis com seu potencial.

Seu filho aprende rápido, mas parece ter perdido o interesse pela escola?

Uma avaliação especializada pode ajudar a diferenciar falta de desafio, dificuldades executivas, ansiedade, problemas de aprendizagem, TDAH, perfeccionismo e outras condições que interferem no envolvimento acadêmico.

Agende uma avaliação especializada e compreenda de maneira mais profunda o funcionamento do seu filho.

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Por Damião Silva
Psicólogo, Neuropsicólogo, Pedagogo, Pesquisador em Altas Habilidades/Superdotação e Pessoa com Altas Habilidades/Superdotação.

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