Por que crianças e adolescentes superdotados podem desistir quando encontram dificuldades?

“Meu filho sempre aprendeu tudo muito rápido, mas agora que as matérias ficaram mais difíceis, diz que não consegue.” “Minha filha era muito dedicada, mas começou a evitar atividades nas quais sabe que pode errar.” Essas situações aparecem nas conversas com famílias de crianças e adolescentes superdotados e levantam uma questão importante: por que estudantes com altas habilidades/superdotação (AH/SD) podem desistir justamente quando encontram desafios de aprendizagem que exigem maior esforço?

Aprender rapidamente e saber lidar com dificuldades são experiências diferentes. Uma criança ou adolescente pode apresentar recursos cognitivos elevados e, ao mesmo tempo, ainda estar desenvolvendo estratégias para enfrentar erros, administrar a frustração e manter a persistência diante de dificuldades. Compreender essa diferença é fundamental para evitar interpretações equivocadas sobre motivação, comportamento e aprendizagem.

Por que algumas crianças superdotadas desistem diante de desafios?

Imagine uma criança que, durante os primeiros anos escolares, compreendia rapidamente as explicações, concluía atividades antes dos colegas e obtinha bons resultados sem precisar estudar muito. Com o passar do tempo, essa facilidade pode influenciar a maneira como compreende suas capacidades. Aprender rapidamente passa a fazer parte de sua experiência escolar, enquanto situações que exigem esforço prolongado podem ser menos frequentes.

Quando finalmente encontra uma atividade difícil, essa criança precisa utilizar estratégias de aprendizagem que talvez ainda não tenha desenvolvido suficientemente. Pode ser necessário revisar uma resposta, experimentar diferentes caminhos ou aceitar que o resultado não aparecerá imediatamente. Algumas crianças enfrentam essas situações com curiosidade, enquanto outras demonstram irritação, insegurança ou vontade de abandonar a atividade. Essas respostas não são características universais da superdotação, mas podem estar relacionadas às experiências anteriores de aprendizagem e às oportunidades de desenvolver persistência.

Inteligência elevada não significa autorregulação desenvolvida

A inteligência elevada favorece a compreensão de informações, o raciocínio e a resolução de problemas, mas não garante, isoladamente, o desenvolvimento de todas as habilidades necessárias para enfrentar dificuldades. A persistência envolve processos motivacionais, emocionais e autorregulatórios que se desenvolvem ao longo da infância e da adolescência, influenciados pelas experiências e pelas condições oferecidas pelos ambientes familiar e escolar.

Na infância, a autorregulação da aprendizagem frequentemente depende de maior mediação dos adultos, que ajudam a criança a compreender problemas, organizar etapas e identificar alternativas. Na adolescência, as exigências acadêmicas aumentam, assim como a expectativa de autonomia para estudar, administrar prazos e acompanhar resultados. Entretanto, apresentar altas habilidades/superdotação não significa que o estudante tenha desenvolvido automaticamente funções executivas, estratégias de planejamento, monitoramento da aprendizagem e enfrentamento de desafios.

Quando a dificuldade começa a ser interpretada como incapacidade

Um adolescente superdotado que sempre apresentou excelente desempenho escolar pode encontrar dificuldades ao ingressar em uma etapa mais exigente. Antes, compreender as explicações era suficiente para obter bons resultados; agora, precisa revisar conteúdos, praticar e organizar uma rotina de estudos. Quando suas estratégias habituais deixam de funcionar, pode interpretar essa mudança como uma perda de capacidade, afirmando: “Antes eu conseguia aprender tudo. Agora parece que não sou mais inteligente.”

Essa interpretação pode influenciar sua motivação para aprender e favorecer comportamentos de evitação. Em algumas situações, abandonar uma tarefa funciona como uma maneira de interromper o desconforto provocado pela possibilidade de errar ou não alcançar o desempenho esperado. Entretanto, dificuldades semelhantes também podem estar relacionadas a demandas excessivas, estratégias de estudo inadequadas, problemas emocionais ou dificuldades específicas de aprendizagem. Por isso, a desistência precisa ser compreendida em seu contexto, e não atribuída automaticamente à superdotação.

Por que estudantes superdotados persistem em algumas atividades e desistem de outras?

Uma criança pode passar horas investigando um assunto científico, construindo projetos ou resolvendo problemas de seu interesse, mas demonstrar pouca disposição para continuar determinada atividade escolar. Da mesma forma, um adolescente pode dedicar muito tempo à programação, à música ou à leitura e apresentar dificuldades para manter o esforço em tarefas acadêmicas. Essas diferenças mostram que a persistência na aprendizagem não depende exclusivamente da capacidade intelectual.

O interesse, o valor atribuído à atividade, a percepção de competência e as experiências anteriores influenciam o envolvimento com a aprendizagem. Isso não significa que crianças e adolescentes devam realizar apenas atividades prazerosas, mas que precisamos compreender por que conseguem manter o esforço em determinadas situações e encontram dificuldades em outras. Diferenciar desinteresse, ausência de estratégias e dificuldades emocionais permite construir intervenções mais adequadas.

Como desenvolver persistência em crianças e adolescentes com altas habilidades/superdotação?

Famílias e escolas podem favorecer o desenvolvimento da persistência oferecendo desafios adequados às capacidades dos estudantes, acompanhados de oportunidades para experimentar estratégias e compreender os próprios erros. Atividades excessivamente fáceis podem limitar novas aprendizagens, enquanto demandas muito difíceis, sem orientação suficiente, podem aumentar a frustração escolar e favorecer a evitação.

Quando uma criança afirma “não consigo fazer”, o adulto pode ajudá-la a identificar o que já compreendeu e em qual etapa encontrou dificuldades. Com adolescentes, essa mediação deve favorecer progressivamente a autonomia na aprendizagem, estimulando o planejamento, a avaliação das estratégias utilizadas e a busca de ajuda quando necessário. O objetivo não é exigir que continuem tentando indefinidamente, mas desenvolver flexibilidade cognitiva para reconhecer quando uma estratégia precisa ser modificada.

Quando procurar uma avaliação especializada em superdotação?

Encontrar dificuldades e sentir frustração fazem parte do desenvolvimento. Entretanto, quando a evitação se torna frequente, compromete a aprendizagem ou provoca sofrimento emocional significativo, é importante investigar os fatores envolvidos. Uma avaliação psicológica ou neuropsicológica pode contribuir para compreender o funcionamento cognitivo, as funções executivas, a motivação, a autorregulação emocional e as experiências escolares, considerando também outras condições quando houver indicadores clínicos.

Crianças e adolescentes com superdotação precisam de oportunidades para desenvolver suas potencialidades, mas também de experiências que favoreçam estratégias de aprendizagem e enfrentamento de desafios. Encontrar dificuldades não significa ter menos capacidade intelectual. Muitas vezes, representa a oportunidade de aprender algo que ainda não foi desenvolvido.

Seu filho apresenta elevada capacidade de aprendizagem, mas demonstra dificuldade para persistir diante de desafios? Uma avaliação psicológica/neuropsicológica pode ajudar a compreender suas potencialidades e necessidades, orientando estratégias individualizadas para a família e a escola.

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Por Damião Silva Psicólogo, Neuropsicólogo, Pedagogo e Pesquisador em Altas Habilidades/Superdotação.

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